O ideólogo, o crítico, o patife, o incauto, por Victor Leandro

25/05/2020

É preciso distinguir bem as categorias operantes na confusão política em que estamos. Do contrário, pouco ou nada restará ao pensamento que a possa desfazer. Ficará somente um vaguidão a perdurar como neblina. Desfazer esse quadro é tarefa urgente para os que procuram alguma lucidez.

Um ideólogo é um produtor de falsa consciência. A rigor, ele não mente, e sim articula visões embotadas num todo lógico, o qual não se aplica de fato à realidade. Porém, que não nos enganemos, trata-se de alguém com fina inteligência e compreensão, mas que viu as coisas por uma lente um tanto invertida. Na tradição marxiana, Adam Smith talvez seja o melhor exemplo.

O crítico é o desfazedor de ideologias, o que rompe sua pseudoaparência de realidade constituída. Para tanto, ele precisa primeiro distinguir o que é ideologia e o que está no nível pré-ideológico ou da insanidade pura. Tão importante quanto a força de suas análises, é esse longo trabalho depurativo.

Nesse contexto, temos o patife. Esse quer passar-se por ideólogo, porém não faz mais do que emitir uma fraca aparência, sem dizer rigorosamente nada. No antigoverno brasileiro, é a grande classe dominante, uma massa néscia que, embora possa-se dizer que tenha um conteúdo ideológico ao fundo, em sua atualização, não realiza mais do que seu emprego degenerado e repleto de prosaísmo inútil.

Diante de tudo isso, fica o incauto. Esse não é apenas o que não discute nada, mas o que leva a sério as exposições do patife, seja para apoiá-las ou opor-se a elas. Contudo, é nele que reside a força da transformação, pois, uma vez modificado, a patifaria cai por terra. A revolução é assunto também de alteração qualitativa subjetiva. Sigamos nela.


Imagem - https://mercadopopular.org/filosofia/a-responsabilidade-social-das-empresas-e-o-processo-de-mercado-sobre-lucros-e-adam-smith/