O grupo dos trágicos, por Victor Leandro

30/12/2020

Julio, Castro, Amanda, Sandro, Irene. Amigos bem mais que juntos, embora aceitem o conflito e a separação. Apreciam-se então unidos, mas não raros são vistos apartados.

E nenhum deles ousa suprimir ao outro o que faz. Levam uma vida dupla, uma para si e outra para os amigos, uma que gozam juntos e outra que traz os prazeres particulares, e não sabem dizer onde gozam melhor, onde o usufruto é mais pleno e verdadeiro.

Os amigos observam o mundo tragicamente. Uma sucessão rítmica de acasos inexplicáveis, uma ausência completa de significado intrínseco, um episódio fortuito que merece ser vivido somente com seu vigor e sua paixão. Intitulam-se desse modo o grupo dos trágicos.

Não que deem atenção a isso. Não que se pensem destacados dos demais, não. Apenas se sentem como trágicos. Outros talvez poderiam sê-lo, não sabiam. O importante é que são trágicos e assim se chamam.

Julio escreve anúncios publicitários. Pensou em fazer cinema, mas viu que para tanto não teria dinheiro nem talento. Restou enganar pessoas com apelos sentimentais e pequenas anedotas, servindo ao grande capital. "é só trabalho", pensava ele. De resto, imaginava poder ser o que quisesse, mas nem sempre era. Boa parte do tempo, agia como se esperava, mas não a sua maneira. Não gostava disso, porém esquecia tais questões em intercursos eróticos e intelectivos.

De Castro não se sabia nada. Ele não contava a ninguém.

Amanda fez sua primeira tatuagem aos 12 anos, e não parou. Pensou em ser profissional na área, no entanto percebeu que gostava mesmo é de tatuar o corpo. Aprecia a amizade e a culinária vegetariana. Trabalha seis meses e nos seguintes derrete o que ganha em viagens inesperadas. Acorda cedo e, com o dia ainda escuro, caminha na praça em frente a sua casa.

Sandro já estava no mundo antes dos demais. Fora casado. Segundo ele, teve 2 anos congelado no tempo. Amava, mas a ordem parecia um obstáculo à tranquilidade. Quem pode ser feliz seguindo manuais burgueses de conduta? Diante do abismo iminente, mudou o curso e fugiu para outro país, não sem antes deixar à esposa boa parte do que tinha e do que não, num ato sincero de desprendimento. Voltou derrotado da Europa, mas descobriu alguma coisa sobre si mesmo. Tinha fracassado e aceitava o destino com franca resignação.

Irene abraça muitos e ama a solidão. No silêncio em que pensa e ouve música, escreve poemas. As palavras aparecendo no papel, por força de uma ordem mental desconhecida, encantam-na. Não tem qualquer intenção de publicar, não se anima em mostrar. Amava o que escrevia, com a força dos amantes silenciosos, que enganam o mundo com sua discrição.

Reúnem-se às sextas, sábados, domingos, feriados e festas de fim de ano. Ora leem versos, ora dançam freneticamente o ritmo da moda. Pouco ligam para a passagem do tempo, ou as preocupações do dia, ou se o que faziam era bom, se era ruim, se aquilo duraria muito ou pouco. Por que fazer perguntas desnecessárias?

Envolvidos nas existências uns dos outros, olhavam para o entorno com a calma perigosa dos equilibristas. Assim é o grupo dos trágicos.