O gato e seu tempo, por Victor Leandro

06/10/2020

Não, por certo que ninguém tem nada contra os cães, porém já não permanecemos mais em seu momento. Agora, estamos na época dos felinos. Onde quer que se virem os olhos, saltitam estes como bichinhos de estimação. Contudo, a forma edipianizada de se relacionar continua a mesma. Abobalhados, os que os cuidam persistem em irritá-los chamando-os de filhos - como se os bichos quisessem como pais esses ridículos, solitários e inseguros humanos.

Porém, nessa guinada, também se mostra uma mudança. Curioso observar que o melhor amigo do homem tenha cedido seu posto ao indiferente animal, que vem e vai a seu bel-prazer, e se liga às pessoas quase sempre pela comida. Mas não estamos numa era de abandono e carência? Não é isso que mostram os consultórios analíticos? Então por que raios estamos a entabular ligações com quem nos ignora boa parte do tempo?

É um contrassenso, sem dúvida. Talvez em grande medida inexplicável. Entretanto, aqui vai um palpite. O gato figura o nosso sonho, a nossa fantasia de grandeza. Em termos de afeto, ele representa tudo o que queríamos ser, nosso objetivo maior, do qual nos encontramos cada dia mais apartados na existência real.

Assim, para nos lembrar do que almejamos, é que o mantemos, com cada vez mais afinco.

O gato, por sua vez, tranquilo e sereno, apenas ri de nosso declínio.