O esquecimento dos esquecidos, por Victor Leandro

18/05/2020

Durante a pandemia, que obrigou determinados agentes públicos a olhar ainda que momentaneamente para os mais pobres, um fato emergiu chamando grande atenção. Há cerca de três milhões de pessoas no Brasil que não dispõem de nenhum documento, ou seja, que se encontram totalmente à margem do mínimo registro pelos órgãos competentes.

Mais estranho que esse número, é somente a subversão ôntica com que tais indivíduos são considerados. Para a chamada opinião pública, o que se diz é que essas pessoas oficialmente não existem, proposição essa que, obviamente, é impossível. Primeiro, porque existir não é algo que se dá de ofício, e sim de maneira manifestada no real. Segundo, porque, ao contrário da superestrutura, qualquer pessoa é capaz de mostrar-se por si, podendo desse modo ser dada como existente. Logo, o que não existe na verdade, tendo tão só um ser representacional, é a burocracia do Estado. Tal raciocínio reverso, se colocado em perspectiva, evidencia o grau de mistificação da sociedade em que estamos, na qual o Estado, que não existe, tem autoridade para dizer ou não o que é existente, isso a despeito de toda a materialidade que se apresenta.

Mas não se trata apenas de ontologia. Tudo isso traz consequência pragmáticas. A rigor, é conveniente tomar como inexistentes tais sujeitos, que na realidade, são apenas esquecidos. Lembre-se do cálculo eleitoral. Quem não vota, não conta. Assim, pouco importa dar-lhes alguma ajuda. Muito pelo contrário, ignorá-los é bastante lucrativo, posto que não há registros que capturem o seu alheamento. Quem não tem documento, não sofre. Oficialmente.

A porta de ruptura, mais uma vez, está em quebrar o ideário dominante da lógica burocrática da burguesia. Que cada indivíduo que se apresente em si tenha imediato reconhecimento, e possa gozar de todos os seus direitos sociais. Para tanto, não basta só pensar neles agora, e sim promover soluções contínuas. Do contrário, como sempre ocorre, o esquecimento recairá mais uma vez sobre os esquecidos, dando lugar a um reles papel em branco, preenchido apenas com a palavra inexistente.