O escritor debutante, por Victor Leandro

22/12/2020

Denis queria escrever romances. Como quis em outros tempos ser pintor, escultor, fotógrafo e, no início da adolescência, comediante. Sua primeira imersão no mundo das palavras se deu pela poesia, no que fracassou. Em termos de estilo de época, seus versos não eram mais do que um simbolismo informe.

Sem porta de entrada, escolheu a ficção. Pretensioso como era, sentiu que poderia fazer coisas grandes, que tinha talento. Queria começar em grande estilo. Aurea, sua namorada, concordava com ele.

-Eu te amo.

-Eu também.

-Adoro o que você escreve.

-Eu também.

O problema estava na direção. Não sabia se deveria ser um romancista sério ou escrever para muita gente. As duas coisas, pensava ele, não eram conciliáveis.

-Romancistas sérios ganham prêmios, mas não são famosos nem ficam milionários. Tampouco fazem filmes de sucesso com seus livros.

Denis era vaidoso. A possibilidade da fama o encantava. Pensou um ou dois dias, e decidiu que iria pelo caminho do sucesso. Sem essa de artista obscuro apreciado por meia dúzia de críticos. Queria andar pela rua e ser reconhecido. Queria ter gente perguntando com quem era casado, quem eram seus amigos. Queria ter fã-clubes e mais de um milhão de seguidores.

Precisava ainda de um gênero para sua primeira obra. O que iria escrever? Histórias de amor? Suspense? Espionagem? Fantasia? Como era seu primeiro trabalho, não seria bom arriscar. O ideal era seguir por um caminho seguro, mas com alguma criatividade.

- Zumbis estão na moda. É o que todo mundo lê hoje em dia.

Perfeito. O conselho de Lennon, viciado em séries, foi acatado prontamente. Um romance de zumbis. Certamente lhe daria grande fama e uma legião de admiradores. Porém sentia que faltava algo.

Nascido na classe média-alta, Denis teve uma educação esmerada, e o inconformava construir uma obra que não aproveitasse seus conhecimentos acumulados ao longo de anos de esforço, e que agora corriam o risco de se tornar inúteis, uma vez que para fazer o que pretendia bastava ter assistido à televisão.

Então lembrou-se de Eco, e imaginou que era ali que deveria salvar-se, nos rumos do romance erudito. Ao pensar dessa maneira, deu um longo sorriso. A fórmula estava completa.

Os componentes foram dispostos de maneira meticulosa em sua mente. Um romance de erudição, zumbis, linguagem coloquial mas bem trabalhada, o sucesso, o dinheiro, a fama. Abriu o laptop e começou a pensar num enredo que abarcasse suas ambições.

Lembrando das letras de Jim Morrison, que sua namorada adorava por conta de seu irresistível sexy appeal, veio à memória o famoso cemitério em que ele havia sido enterrado. Uma rápida ida ao site de buscas, e os nomes dos famosos afloraram a sua frente, bem como o título de sua narrativa: "Os ressuscitados do Père-Lachaise".

Imaginou, então, a história: Proust, Balzac, Wilde e Prudhomme seriam os primeiros a romper as lápides de marfim e pensariam de início em não fazer nada, no que seriam demovidos pela ala dos militares que, liderados pelo Marechal Murat, arquitetavam um plano para a tomada de Paris. Moliere e Rossini se encarregariam do tom dramático da empreitada, enquanto Melies e Delacroix discutiriam sobre sua representação. O inimigo comum não seriam os indivíduos humanos, os quais, ao contrário, seriam bastante apreciados como escravos e fonte de alimentos, mas a pós-modernidade, que funcionaria como uma espécie de nêmesis coletiva. O objetivo, afinal, era recuperar os valores estéticos e morais perdidos no passado.

O viés romântico ficaria por conta de Abelardo e Heloísa, cujo reencontro, agora para a eternidade, seria marcado por um forte tom sentimental, bem ao estilo dos amores vampirescos adolescentes. Ao saber disso, Aurea sorriu alegre, parabenizando Denis por sua inventividade e fabulando com ele as inúmeras benesses próprias da vida de um escritor de sucesso.