O devir-resistência dos povos indígenas, por Victor Leandro

29/05/2020

Há uma grande equivocidade em interpretar os povos indígenas no Brasil como se fossem monolíticos. Desde sempre, eles atuam num fluxo continuo de transformação, no que se percebe toda a dinâmica intensa de seu movimento, e que sempre os leva a não estar onde permaneciam antes.

Contudo, o que causa estranheza naqueles que não capturam seu instante, é que esse devir é pautado sobretudo como resistência. Desde o princípio da colonização, os habitantes originários do país recusaram a onticidade determinada dos europeus. Assim, permaneceram formatando seu próprio cronos e seu próprio ethos, sem se dobrar aos ditames moralistas e neurastênicos que lhes eram impostos. Sem dúvida, pagaram um preço muito caro por essa rebeldia, configurada sobretudo num alheamento fixado em sua alcunha de primitivos.

Hoje, diante das iniciativas oficiais frontalmente deletérias, estes são novamente convocados à transfigurarem-se e testar sua fibra, no que respondem com a firmeza de sua bravura. Sua mais alta insubordinação é não negarem a si mesmos, e assim buscarem uma sobre-existência que lhes garantirá a continuidade na luta. Sim, para eles, não há descanso. São raros os que estão dispostos a não sucumbir durante tanto tempo.

O antigoverno vaticina. Os indígenas devem desaparecer. E trabalham por esse doentio objetivo. No entanto, a história diz que é melhor não contar com isso. Já tiveram inimigos maiores, e a todos eles demonstraram sua grandeza.

É um devir indestrutível, forjado na mais aguda resiliência.

Como o rio que corre, eles seguem em frente.


Imagem - https://www.notibras.com/site/indios-em-pe-de-guerra-ocupam-brasilia-por-seus-direitos/