O desgoverno, a policlínica e os bombeiros militares, por Luana Aguiar

06/11/2020


A Policlínica Governador Gilberto Mestrinho, localizada no centro da cidade de Manaus, está em vias de ser entregue, ainda neste mês de novembro, ao comando do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas como moeda de troca do atual desgoverno do estado. O que há alguns meses se parecia mera especulação, agora se comprova como ameaça aos servidores da unidade e à saúde pública.

Após os primeiros rumores, no dia 28 de agosto, alguns funcionários se manifestaram na imprensa e a Secretaria de Estado de Saúde, prontamente, alegou como falsa a ameaça da vinda dos militares recém-convocados. No entanto, semanas depois, o governador Wilson Lima, em uma live de sua rede social, anuncia com clamores de seus apoiadores que a policlínica terá uma nova gestão assumida pelo Corpo de Bombeiros. Entre ditos e não ditos, incertezas quanto ao futuro dos atuais servidores e da continuidade dos programas de saúde que lá funcionam (pois nada lhes é, de fato, informado com clareza), o certo é que há data e hora marcada para os militares chegarem.

A justificativa do governo para tal mudança é o discurso de melhoria dos serviços de saúde oferecidos. Claro, quem não gostaria de mais médicos, enfermeiros, assistentes sociais, entre outros profissionais da saúde atuando numa policlínica que se sabe estar a muito tempo entregue às baratas? Nas rádios e na televisão, não há um dia em que não se divulgue a Policlínica Gilberto Mestrinho como "uma unidade de saúde renovada" e "porta de entrada para os pacientes do interior do estado". No entanto, nada foi feito, em nenhum aspecto, para que o local consiga suportar essas mudanças. Propaganda aos borbotões, mas a realidade é triste e dura: a passagem da gestão da unidade de saúde aos bombeiros militares não passa de um acordo político que nunca terá como objetivo o bem estar da população.

Após a chegada de uma gestão militar, o que podemos esperar? Pensemos nas escolas públicas que firmaram parceria com a Polícia Militar do Estado e, atualmente, se espalharam por todas as regiões de Manaus. Elas não continuaram atendendo a população mais carente, como antes atendiam, dando material, uniforme e todo tipo de recurso de forma gratuita às crianças. Para as matrículas, dá-se privilégio para familiares de policiais ou indicações de conhecidos; e as famílias mais pobres que não tem recursos para comprar livros didáticos e uniformes caríssimos, que são obrigatórios, precisam matricular seus filhos em outra instituição. Na saúde seria diferente? Por que há necessidade de intervenção militar para se "melhorar" os serviços que, supostamente, deveriam ser oferecidos apenas pela Secretaria de Saúde? E, sendo uma troca de favores entre o governador e seus aliados, as melhorias (se ocorrerem) permanecerão após a sua queda?

Assim, na surdina, gradativamente, tudo vai mudando pelo comando e favorecimento deles e, como sempre, ficamos nas mãos dos homens de poder.