O Chiste e a Sua Relação Com o Inconsciente, por Bruno Oliveira

18/06/2020

No início do século XX, Freud lançou, após reunir várias piadas sobre judeus, O Chiste e a Sua Relação Com o Inconsciente. É nessa obra que uma ideia interessante ganha vida: é possível que através de brincadeiras, nós possamos falar de coisas sérias, disfarçando por vezes ódios, preconceitos, etc. A obra é uma investigação da relação que há entre o inconsciente e o chiste, a piada, trocadilhos. A característica principal de um chiste se acha não em seu conteúdo, mas sim em seu método: determinado pensamento é condensado por meio de uma palavra modificada, esse método requer uma audiência e possui, portanto, uma função social. Tentaremos ao longo desse ensaio expor como tudo isso se dá.

Quando a obra foi lançada em 1905, os alicerces essenciais da psicologia já estavam bem fundamentados: o inconsciente, a pulsão, o aparelho psíquico, o desejo e tantos outros. O que Freud queria demostrar a partir desse período e através de seus estudos é que o inconsciente não aparece apenas nos sonhos, ou seja, não aparece em uma pequena parcela da nossa vida, mas ao contrário, o inconsciente busca aparecer através das nossas diversas atividades do cotidiano como, por exemplo, nos atos falhos, nas práticas religiosas, nas artes, na procrastinação e, falando especificamente, já que será o nosso tema a ser abordado, no chiste. Ou seja, o chiste está estruturado da mesma maneira que o sonho como uma formação do inconsciente.

O conceito de chiste está atrelado a palavra em alemão Witz, que a duras traduções quer dizer: o dom de cortar acertadamente algo alegre e divertido; o dom de replicar pronta e alegremente; graça de espirito, esperteza, engenhosidade, inteligência. Ou seja, o chiste é a capacidade de alguém de expor ou contrapor uma ideia através do seu ser espirituoso, este entenderemos no sentido de feliz, quase ingênuo até. Este expor ou contrapor de ideia se dá no individuo da mesma forma do sonho. Como assim?

A técnica do chiste e do seu efeito humorístico são causados pelos mecanismos de condensação e deslocamento, dos quais o inconsciente se apresenta como nos sonhos, nos atos falhos e sintomas. Só que há uma diferença fundamental do chiste para com estes outros, que é exatamente o toque do humor. Pensa bem, se o chiste é estruturado como o sonho, ou seja, como uma formação do inconsciente, sendo por isto mesmo um meio para expor alguma coisa que um recalcado não pode expor em vias do consciente, então ele aparece como uma vantagem não dolorosa pois não há um preço neurótico a se pagar causado pela angústia ou o padecimento; há sim através do humor um álibi que o sujeito pode usar para expor ideias que não foram capazes de ser ditas.

É desse modo que muitas vezes expomos ideias que originalmente nunca diríamos em uma situação comum. As frases terminadas com é brincadeira, é de mentirinha ou foi sem querer querendo nos ajudam a entender como o chiste funciona. Elas são pronunciadas através do non-sense, do paradoxo ou do absurdo que se segue a uma revelação de sentido desembocando em uma descarga de risos. É assim que muitas verdades são expostas sem que tenhamos necessariamente consciência delas.

É interessante ressaltar uma diferença entre o campo de aparição do sonho com o do chiste. Se aquele se revela apenas ao indivíduo e tende a permanecer a sua significação a ele, ao seu pequeno plano, no micro, isso já não acontece com o chiste, pois este apresenta uma função social, pois é lançado ao macrocosmo social. É necessário que haja um discurso e um interlocutor para que o chiste tenha a sua trajetória completa.

Se o discurso é o meio para que ocorra o chiste, logo esse meio é puramente feito de linguagem. O chiste é uma criação simbólica repentina e se dá através dos jogos de palavras, de metáforas, ironias, hipérboles e etc. O chiste ocorre num instante.

Podemos pensar de uma forma ingênua e atribuir uma significação ao chiste de verdades não ditas, ou seja, aquelas verdades que não podemos ou não queremos dizer, expor, apresentar por medo do julgo de outrem ou qualquer outro motivo, porém o chiste também carrega dentro do seu humor uma força menos ingênua, força que dependendo de quem o pronuncia, o chiste está carregado de preconceitos, xenofobia, racismos, etc. Isso não é só perceptível no período em que Freud escreveu sua obra, quando havia uma Europa fortemente antissemita, mas hoje em dia, quando o discurso da rede social através dos memes, dos comentários, dos posts apresentam um conteúdo altamente ofensivo. Discurso este que se apresenta sempre com a bandeira do humor ou em nome da liberdade de expressão.

Portanto, podemos afirmar que o chiste engloba e implica três aspectos. O ético, com a sua repulsa a morte, pois há a necessidade de mostrar o inconsciente através de comentários humorísticos; é estético, porque busca maneiras criativas de produzir o riso, e, portanto, prescindi a noção de prazer em quem diz ou ouve um chiste; e, por fim, é político já que para completar o seu estágio de existência o chiste precisa chegar a um interlocutor por meio de um discurso.

FREUD, Sigmundo. Freud (1905) O Chiste e a Sua Relação Com o Inconsciente. Companhia das Letras, 2017. São Paulo.