O ataque aos servidores públicos - políticas do ressentimento, por Victor Leandro

07/09/2020

Friedrich Nietzsche, o grande filósofo da potência criadora, sempre nos alertou contra os perigos do ressentimento, arma nefasta e autodestrutiva praticada por "seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação", e cujo tom é costumeiramente moralizante: "'o inimigo'- tal como o concebe o homem do ressentimento - e precisamente nisso está seu feito, sua criação: ele concebeu 'o inimigo mau', 'o mau'". Assim, é dentro desse conjunto de fabulações ajuizadoras que o ressentido se movimenta, gerando uma campanha mítica e alucinada contra todo aquele que se encontra em posição de despertar-lhe rivalidade e ira.

No Brasil de hoje, comandado por afetos mesquinhos, o ressentimento foi apropriado e manipulado socialmente como política oficial. Assim, estabeleceu-se uma ordem delirante dos bons contra os maus, cujos inimigos, por óbvio, foram escolhidos conforme o interesse dos que pretendem vandalizar o país. No momento presente, quem se destaca, dentro do panorama da pretensa reforma administrativa, é o servidor público, visto agora como o grande entrave à máquina do estado, uma vez que exerce mínimas funções a salários completamente fora da realidade. O argumento, obviamente, é fraco, e não teria a mínima chance de prosperar, não fosse a situação precária em que vive a maioria dos trabalhadores do país, o que torna fácil dirigir a sua revolta contra um falso oponente comum, único culpado por drenar o dinheiro da gestão pública.

Como todo mau pensamento, o que se perde aí é o sentido da realidade. Ora, é muito clara a falta de isonomia salarial no serviço público. Se há pessoas que recebem muito, isso fica reservado ao topo da hierarquia - a qual, aliás, não será tocada pela reforma. De igual maneira, se há uma diferença entre o que é pago pelo serviço público e a iniciativa privada, isso só mostra o quanto os patrões são exploradores e como é importante manter a política de proventos nos governos para dar alternativas à população, visando à renda digna, além de instigar a ida de profissionais qualificados para atuarem nas profissões do estado. Logo, atacar o serviço público é atentar ainda mais contra a já delicada situação dos operários do país.

Mas isso pouco importa, não tem a menor importância no fim. Na política dos tristes afetos, o que vale é fazer com que o ressentimento ganhe proeminência. Nivelem por baixo a todos, e os espíritos tacanhos irão dar-se por satisfeitos. Assim sorri Paulo Guedes, enquanto seus amigos ficam ainda mais ricos. Aos demais, como diz o poeta, resta acostumarmo-nos à lama que nos espera.