No limiar do acontecimento, por Victor Leandro

08/06/2020

Um verdadeiro acontecimento não pode ser confundido com um fato qualquer. Este se caracteriza sobretudo como uma mudança na ordem das fundamentações, ou, segundo considera Alain Badiou, como a aparição de uma novidade radical que altera as estruturas estabelecidas, a qual não pode ser previamente deliberada, mas que surge do encontro de um conjunto pronunciado de eventos.

No Brasil de hoje, são inúmeros os sinais de que um acontecimento político está bastante próximo de sua ocorrência. Tanto as ações do antigoverno, cada vez mais autoritárias e destrutivas do bem-estar da população, quanto o despontar de reações antifascistas declaradas, apontam para um rumo que, embora tenha sido retardado ao máximo por ambas as forças, apresenta-se cada vez mais como irreversível. É muito pouco ou nada o que pode fazê-lo retroagir.

Nesse cenário, as posições individuais passam a importar cada vez menos. Assim, já não interessa mais, por exemplo, quem na ala progressista é contra ou favor da mobilização nas ruas. Esta seguirá por seu próprio curso, bem como as razões que a motivam. Que se opte por perder o trem da história, essa é a única decisão viável de ser construída. De resto, cabe apenas constatar passivo ou não os desdobramentos da dialética peremptória do país.

Mas o que importa mesmo é o resultado de tudo isso, a natureza qualitativa desse próximo acontecer, a forma de seu novo impulso. Disso é que despontará o nosso porvir. Se fascismo ou autêntica democracia, não passa de agora o instante da escolha, ou o acontecimento nos esmagará com seu pulso violento.

O momento da espera se esgota. Precisamos decidir firmes.

Socialismo ou barbárie? Só é possível um caminho.