Narrativas da juventude - Alice e a Ampulheta, por Maria Eduarda

06/08/2020

O sol da tarde reinava cruel sobre o prédio de sete andares apertado em meio a tantos outros, como que numa competição por espaço na rua. Poderiam variar em duas ou três cores, em nome e em andares, mas a atmosfera dura, abafada e espremida, tentando manter o conforto e a conformidade (ou ao menos a aparência deles), era a mesma para todos os prédios e moradores dali.

O ruído de ventiladores era o som que pairava no apartamento onde vivia a pequena Alice. Ela andava de um lado para o outro na sala do apartamento não muito grande, mas não muito pequeno em busca de algo incerto, uma curiosidade, o desconhecido escondido no familiar, um passatempo para brincar.

A menina sentia-se só, sua mãe estava em casa, mas não gostava de ser interrompida enquanto cuidava de negócios - o dia inteiro, sempre isso, todos os dias! - achava a menina, que de qualquer jeito, não foi pedir atenção à mãe. Seu pai estava viajando a negócios há um mês, não tinha irmãos, não saía para brincar como os meninos que via a jogar bola na rua. Devaneou ao largar-se no sofá marrom que queria um gato, ou até mesmo um sapo para uma companhia animal, despretensiosa e disponível para ela. Mas não, seus pais não deixariam e ela continuaria assim, sozinha.

No torpor inativo de uma tarde quente, Alice despertou da solidão com o calor opressivo que a fazia suar, deixando sua testa brilhante e grudenta, e fios de seu cabelo curto castanho-claro molhados de suor. Foi para a frente do ventilador laranja de plástico, e depois de alguns segundos, dirigiu-se à geladeira para pegar os três últimos cubos de gelo, colocou dois para derreter na boca e um para refrescar sua testa.

Nas andanças de apartamento, foi à varanda olhar a rua tão monótona e cinza. Mal havia vento, mal havia sombra, faltavam árvores na vizinhança, aqui e ali uma samambaia, uma suculenta, uma roseira de varanda para pontilhar de verde o deserto de concreto. Em sua varanda, um cacto e uma suculenta, únicos pontinhos vegetais de casa, a lembravam de distantes espaços naturais.

Entediada pela vista, saiu da varanda de volta para a sala e ligou a tevê, havia uns três canais com desenhos, mas um canal diferente chamou sua atenção, passava algo que os adultos chamariam de jornal, que ela começou a assistir. Chegou no fim da previsão do tempo, atrasada para saber se o próximo dia seria tão quente assim na sua cidade, principalmente na sua árida rua, mas sem problemas, ela continuaria assistindo. Apareceu na tela uma mulher bela, quase que de porcelana, que parecia tão séria ao dar a notícia:

"Este ano é o quarto consecutivo a bater o recorde de ano mais quente da história ('Droga!', pensou a menininha). Especialistas falam que isso se deve ao aquecimento global, provocado pelo homem com emissões colossais de gases efeito estufa desde a Revolução Industrial, graças à queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, redução das florestas, desmatamento etc...". Alice não entendia muitas coisas, mas entendeu que o mundo estava ficando mais quente (e insuportável) porque os seres humanos, que nem ela, estavam bagunçando com a Terra, tirando delas suas árvores e fazendo uma fogueira fedorenta, parece que já há algum tempo.

"Segundo cientistas, a Terra pode esquentar entre 1,5 no melhor cenário a 7 graus Celsius no pior cenário até 2100. Isso trará sérias consequências para os ecossistemas e para o ser humano, como o aumento do nível dos mares inundando zonas costeiras, branqueamento dos corais, extinção de espécies, eventos climáticos (como secas e tempestades) extremos que prejudicarão colheitas, abastecimento de água, infraestrutura urbana e castigarão países inteiros. Cidades ao redor do mundo podem ficar muito quentes para que se viva com qualidade, e o pior, as populações mais pobres do mundo serão as que mais sofrerão com as consequências devastadoras do fenômeno, como a insegurança alimentar, estresse hídrico, desemprego e doenças, somando-se à poluição de diversos ambientes..." Eram mostradas imagens de florestas em chamas, pessoas emagrecidas fugindo de um furacão em um cenário devastado cheio de escombros, um lago seco com terra rachada, inundações varrendo uma cidade, corais marinhos esbranquiçados e com poucos peixes ao redor, lixo em uma praia, uma chaminé fumacenta de fábrica em uma cidade cinza, uma plantação destruída e crianças com fome ao fundo, uma petrolífera.

Alice espantou-se e sentiu medo, uma tristeza aflita também. As imagens passavam por sua cabeça em filme, e não era isso que ela queria para a sua vida e a de todas as pessoas. O futuro seria sofrido demais, imaginou-se com calor e com sede, e percebeu que já estava com calor e com sede, só que tudo seria aumentado e pior em um mundo despojado de seu verde, abafado, sufocante, sem sabor, malcheiroso e extremo. Ela sabia que havia um lugar muito bonito chamado Amazônia, que ela sempre quis conhecer e saber se o ar seria tão mais puro em meio à imensidão de árvores, e foi aterrador ver seu lugar dos sonhos, seu tesouro, tomado pelo fogo.

Mas por quê? Por quê as pessoas faziam isso com seu pontinho azul no universo se sabiam que faria mal para elas mesmas? Seus pais, mesmo distantes e meio pedras, diziam que a amavam, mas como poderiam deixar para ela um planeta apodrecido e murcho? Como ela viveria no futuro? Faminta? Sedenta? Sufocada? Suada? Sempre cansada da mesma paisagem cinza? Pelo andar da carruagem, as coisas não ficariam muito boas, na verdade, já não estavam.

Imaginou o tempo até 2100 ou 2050, não tardaria muito, e no desespero de saber que o futuro talvez não seja tão maravilhoso como a jornada da menina de livro que inspirou seu nome, olhou de um lado para outro, atordoada, e parou seus olhos na ampulheta de seu falecido avô (ele era do Amazonas, terra do rio e floresta! Como queria ir com ele para lá). Na ampulheta, sabia-se que uma hora chegava ao fim quando toda a areia caía para o outro lado, e Alice percebeu que o tempo de salvar o mundo desse destino cruel, ou ao menos torna-lo menos pior, também estava se esgotando, com a sobrevivência da vida no planeta correndo para baixo da ampulheta...

Não! Não dá mais para esperar, foi essa a conclusão a que chegou. Cansou de aguentar e foi até o escritório onde a mãe fazia a contabilidade - que nome estranho -, e disse:

- Mamãe, nosso planetinha tá morrendo, vamos salvá-lo? Eu não quero viver coisas tristes no futuro, tá muito quente aqui e vai ficar pior. Vamos plantar árvores e salvar animaizinhos, a natureza é tão fofinha. Vamos falar disso para as pessoas, escrever cartazes, aí todo mundo se junta pra ajudar. Mamãe!

A mãe apenas levantou os olhos e respondeu:

- Deixa pra depois, todo mundo é muito ocupado pra isso.

E Alice temeu pelo futuro, pois muitos não se preocupavam ou não se esforçavam pela Terra. Mas Alice decidiu não desistir.