Não ser Dostoievski, por Victor Leandro

26/11/2020

Narrar permanente com uma sombra, uma chave, um monumento de grandeza.

Que não nos olha. É somente por intenção própria que avistamos. Instalou-se em nós pela obra, e não pôde mais sair. O que éramos muda, como muda a arte do mundo inteiro.

Então concluímos um gesto, uma frase, um dizer mais denso. Contudo, lembramos. E é ainda oblíquo. Simples expressão da falta-a-ser, do que estamos certos de que nunca estará como naquele livro.

De nenhum modo, trata-se de uma questão mimética. Não é que tenhamos rivalidade. Apenas o estranho notar que nossa forma não é a forma, que há algo de mais alto ao longe, que existe um ponto que não se alcança, mas apenas se vislumbra.

Ainda assim tentamos. E fazemos e escrevemos e nos pomos expressos, no que certas horas temos por satisfeitos. É o que nos cabe, perscrutar linhas semiacabadas de tudo aquilo que na Rússia já foi dito.

Escrever e não ser Dostoievski, apenas isso.