Mulher, corpo e maternidade compulsória, por Luana Aguiar

19/05/2020

Aos nossos olhos ocidentais, parece-nos estranho - ou até mesmo grotesco - imaginar uma comunidade judaica ultra ortodoxa como os Satmar, em Williamsburg, Brooklyn, parte do cenário de Nada Ortodoxa, em que cada ritual e norma de convívio social foge à lógica do que, pretensiosamente, consideramos como normal. No entanto, o que consideramos como quase uma distopia é a realidade de muitas pessoas e (no ponto em que queremos chegar aqui) o de muitas mulheres.

A minissérie, baseada na biografia da escritora Deborah Feldman, narra a história da jovem de 19 anos Esty Shapiro, que foge de sua comunidade hassídica, em Nova Iorque, até Berlim, onde mora sua mãe - também desterrada. Na comunidade, a jovem vivia uma completa anulação de sua própria individualidade, tem como objetivos de vida a procriação e a conservação do lar. Após um ano de casamento arranjado, tentativas frustradas de concepção e privação social, Esty decide abandonar a comunidade judaica pouco tempo depois de descobrir que, finalmente, havia engravidado. A fuga, claro, não esteve livre de perseguições e manipulações psicológicas para que a personagem retornasse à comunidade.

Nada que, ficcionalmente ou não, já não tenhamos visto em outras obras ou relatos: protagonismo reduzido ou nulo de mulheres, falta de acesso à educação feminina, estupros institucionalizados, maternidade compulsória, a falta de direito ao próprio corpo. Em Fique comigo, de Ayobami Adebayo, Yejide é uma primeira esposa que não consegue engravidar mesmo após quatro anos de casamento e que sofre, constantemente, com a pressão familiar e social para atingir a maternidade, chegando ao ponto de "encomendarem" uma segunda esposa ao marido para cumprir este papel.

Com certas ressalvas, claro, podemos dizer que até nos lembram as aias, em O conto da aia: mulheres transformadas em úteros encomendados. No romance da canadense Margareth Atwood, os Estados Unidos se transformam em Gilead, um Estado sob regime totalitário, regido por preceitos cristãos e ultraconservadores. Devido a uma crise de fertilidade que assolou o mundo todo, as mulheres que permanecem saudáveis - entende-se, para procriar - são submetidas a todo tipo de tortura e submissão, transformadas em úteros de aluguel para famílias da alta sociedade.

Voltando ao romance nigeriano, o que Yejide descobre tardiamente, no entanto, é a impotência do companheiro que, durante todos os anos de matrimônio, nunca fora revelado. Por ter casado virgem e não ter tido acesso a qualquer tipo de educação sexual, Yejide nunca desconfiara das disfunções do marido e sempre deixou cair sobre si a culpa pela não fecundação - assim como n'O conto da aia essa responsabilidade (ou culpa) jamais foi masculina.

A privação de direito sobre o próprio corpo da mulher e a maternidade compulsória não são exclusivas da literatura, de distopias ou comunidades ultra religiosas, como o judaísmo ortodoxo. Apesar de muitos avanços, ainda hoje, nós mulheres lutamos contra o assédio, pelo direito ao aborto legal e seguro, pela liberdade sobre o próprio corpo - seja quanto à maternidade, seja quanto ao que vestimos. Ainda hoje, precisamos falar mais alto para que nossas vozes e nossas opiniões sejam ouvidas.

O que nos parece tão distante está apenas virando a esquina: Nada Ortodoxa foi a realidade de uma dentre tantas mulheres judias; Fique comigo é a dor de muitas mulheres nigerianas; O conto da aia não é uma distopia, mas uma possibilidade, e é nosso dever lutar para que nunca se torne.