Medo do poder, por Victor Leandro

28/05/2020

Há uma fórmula bastante conhecida em psicanálise que afirma que, diante da possibilidade real de realização de um desejo, retardamo-no até o seu limite, a fim de manter intacto o caráter quimérico de seu alcance. Assim, nós nos mantemos na zona parcialmente satisfatória do quase lá, em que recusamos chegar ao objetivo que, no final, poderia revelar-se como um esfacelamento de nossas fantasias.

É somente por esse caminho que poderia ser explicada a escolha do PT local nas eleições municipais. O simples aparato burocrático e político não é suficiente para dar conta do fenômeno. Há dois anos, quando as chances eram menores, houve acordo para a candidatura a governador. Agora, quando de fato a administração da capital pode enfim passar à esquerda, o impasse persevera e elenca um candidato sem a menor chance. É um desfecho muito cômodo para quem prefere ficar para sempre no gozo do discurso das linhas de oposição.

Porém, socialmente, a conta deverá sair muito cara. Aos olhos do povo, tudo que figurará é um massivo medo do poder, um atestado de incapacidade de se organizar minimamente para gerir Manaus. Se um partido não consegue se articular nem mesmo para uma escolha óbvia, quem dirá para cuidar de uma cidade cujos problemas se anunciam como históricos e quase que insolúveis. Melhor é, para muitos, deixar as coisas como estão, aos cuidados das antigas oligarquias.

Dessa maneira, o resultado que se tem é mais do mesmo. Nas eleições do presente ano, não existe mais a menor perspectiva de mudança, e é desejo do PT local que as coisas continuem assim. No dia seguinte à eleição, somente um alívio tomará conta de seus membros. Terão feito um trabalho muito bem sucedido. Nada mais prazeroso do que esquivar-se daquilo que tanto se deseja.