“Mas foi seu pai que te deu ou você trabalhou?”: os discursos da meritocracia e do bom nascimento, por Claudiana Narzetti*

10/08/2020

A sociedade brasileira acompanhou esta semana mais uma cena que infelizmente vem se tornando cada vez mais comum. Um diálogo (na verdade um duelo verbal) entre Matheus (um entregador de alimentos por aplicativo, um "motoboy") e Mateus (o cliente do aplicativo, morador de um condomínio de luxo), chocante para a maioria das pessoas. Reproduzo abaixo um trecho:

Mateus - "Você tem inveja disso aqui" (mostrando a sua pele e a sua casa).

Matheus - "Mas foi seu pai que te deu ou você trabalhou?"

Mateus - "Eu já nasci rico!"

Matheus - "Mas o senhor trabalhou?"

Mateus - "Muito."

(...)

Mateus - "O meu nome tá na bíblia".

Matheus - "O meu nome também tá na bíblia: Matheus!"

Mateus - "O seu nome é Matheus?? Vai mentir agora". (...) "Você é um analfabeto, você é um favelado!"

Nesse diálogo (curto e brutal), encontramos uma gama de discursos em circulação em nossa sociedade. O discurso da meritocracia, o discurso do bom nascimento e da boa origem, o discurso religioso. É sobre esses discursos que vou tecer algumas considerações, a partir da perspectiva de um campo de investigações intitulado de "análise do discurso".

O diálogo se compõe de poucos enunciados. Os enunciados do Mateus morador de condomínio de luxo, pertencente a uma alta classe média, estão carregados de signos da distinção social, da suposta superioridade de uns sobre os outros; e estão carregados da expressão do preconceito de raça e do preconceito de classe que tanto marcam a sociedade brasileira. Eles nos chocam por expressar de maneira tão direta, sem qualquer modalização, ambiguidade ou eufemização, esses preconceitos. Já os enunciados de Matheus, motoboy, estes nos dão esperanças. Eles expressam sua visão crítica diante das desigualdades sociais típicas de sociedades capitalistas - "mas você trabalhou ou ganhou do seu pai?".

No enunciado de Matheus, a consciência de que a riqueza não vem apenas do trabalho e do esforço individual como muitos discursos nos querem fazer acreditar. No enunciado de Matheus, a consciência de que se pode ser rico por herança também. No discurso de Matheus, pode-se tornar-se rico por meio do trabalho, e essa maneira, essa sim, seria legítima diante da outra (nascer rico, ganhar tudo do pai). Tornar-se rico pelo trabalho é mérito, é meritocrático, e, a princípio, todos teriam essa chance. O discurso de Matheus é o da meritocracia.

Matheus tem todo o potencial para desenvolver ainda mais seu senso crítico e de se desvencilhar da ideologia da meritocracia: infelizmente, a riqueza não se alcança pelo trabalho; a riqueza vem da exploração do trabalho dos outros, assim como o criador do aplicativo para o qual o rapaz presta serviço faz com ele. Matheus pode ser grande em sua luta pelos direitos da sua classe!

Já o Mateus morador está divido entre o discurso da meritocracia e o do bom nascimento: "Já nasci rico!" (ele diz em tom orgulhoso e superior), mas, ao perceber a linha argumentativa de Matheus, logo se "corrige": "Eu trabalhei muito". Então, buscando outro caminho para mostrar ser superior, Mateus apela para o discurso religioso - "O meu nome tá na bíblia", como signo de distinção social. Ao que Matheus responde "Meu nome também tá na bíblia: Matheus!". Qual não é a supressa de Mateus ao saber que o motoboy que ele tenta humilhar tem o mesmo nome que o seu! Nesse momento do diálogo o discurso religioso cristão emerge e funciona como um ponto de contato entre sujeitos de classes distintas e com ideologias até então diferentes. O discurso religioso é central na constituição da subjetividade do brasileiro.

Esse diálogo é muito significativo para um analista do discurso, como eu, tanto pela riqueza de dados que contém, quanto pela esperança que desperta. Há tantos Matheus - tantos cidadãos que podem alcançar um nível mais elaborado de consciência social e de conhecimento da realidade. Isso nos dá um alento diante do cenário em que vivemos hoje, em que a desinformação (por meio das fake news) ganha tanto espaço; e em que o ódio e a intolerância são cuidadosamente cultivados por certos grupos, visando à manutenção da exploração de classe e da opressão. Somente essa consciência social elaborada pode nos conduzir novamente ao caminho de construção de um país que preze e que pratique políticas de justiça social para todos os seus cidadãos.

Claudiana Narzetti - Professora do curso de Letras e do Mestrado em Letras e Artes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)