Manaus, paradoxo periférico do desenvolvimento, por Victor Leandro

22/04/2020

Como pode um lugar tão remoto estar no epicentro de uma pandemia mundial? Essa é uma pergunta de estrangeiros. Aqui, sabemos muito bem o lugar que a cidade ocupa com seu polo de indústrias. De modo que a questão se nos afigura de outra maneira. Como pode um lugar desenvolvido atravessar uma pandemia de maneira tão precária? Eis o ponto mais sério e que merece nossa atenção.

Sim, foram anos e anos de descaso e abandono dos gestores públicos. Cada um deles deu sua parcela de contribuição para esfacelar o sistema sanitário. O que vemos agora é apenas a situação-limite, em que os mais ineptos denunciam sua própria perdição. Porém, isso é o óbvio. Há questões estruturais mais profundas.

Verdade é que Manaus vive de modo intenso, exemplar, todas as contradições da chamada economia global e do desenvolvimento. Como candidata a metrópole, ela recebe todos os prejuízos e malefícios comuns para um espaço desse tipo: engarrafamentos constantes, explosões de violência, crises de saúde. Já como capital isolada e distante, são poucas as benesses que lhe chegam, de modo que a equação encontra uma fórmula terrivelmente deletéria para o bem-estar de seus habitantes.

Mas isso é algo típico da lógica capitalista, que se aproveita dos sonhos de modernização para explorar essas zonas frágeis, tornando-as efetivas áreas de consumo, só que sem o devido retorno social, cultural e humanístico, que permanece guardado para suas zonas principais.

Nós acreditamos nessa falácia há muito tempo, porém agora pagamos uma dura conta. Precisamos sair dessa fantasia, e pensar uma nova ideia de progresso por nossas mentes. Que afirmemos nossa força e autonomia. É chegada a hora de sermos a margem de nosso próprio centro.