Manaus, laboratório do esquecimento, por Victor Leandro

15/06/2020

Nem bem a pandemia começa a dar sinais de arrefecimento na capital amazonense, e os representantes dos poderes constituídos já dão início à obliteração da memória do descaso e do caos vividos há menos de dois meses, num trabalho que se apresenta como piloto para o apagamento de tais fatos da recordação nacional.

Em todos os cantos, e ao arrepio dos fatos evidentes, o que brota é sobretudo uma palavra oficial: vitória. Nisso, até mesmo pesquisadores oferecem sua ajuda, adotando veementemente o termo, o qual seria tão somente estranho, não fosse também cientificamente ridículo. Ora, se estamos num estágio em que o vírus parece diminuir sua força, isso só foi obtido às custas de uma imensa expansão acelerada que deixou o sistema de saúde em frangalhos e provocou enterros em covas coletivas. Desse modo, se os governos locais, que agora cantam seus êxitos, colaboraram em algo para esse estado mais tranquilo, foi apenas com sua incompetência, que transformou a cidade num centro mundial de morte e destruição sanitária, a qual foi tão grande que alcançou rapidamente o seu termo decisivo.

Mas tudo isso parece já estar sendo lançado ao esquecimento. O povo venceu, é o que dizem. Quanto ao resto, é melhor esquecer, bem como ignorar o fato de que, apesar da sensação de calmaria, as perdas humanas seguem a um ritmo diário e constante. A vida precisa retornar ao seu cotidiano pré-pandêmico.

Contudo, inconvienentemente, as lápides e a dor impedem de esquecer. Porém, creem os empresários, isso será só por um momento.

Vence o dinheiro. A cidade afogará as mágoas comprando no centro.

Imagem- https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/enterros-triplicam-e-cemiterio-de-manaus-abre-valas-comuns-para-vitimas-do-coronavirus.shtml