Manauenses, por Victor Leandro

18/05/2020

Recuperação de uma tentativa quase arruinada de plagiar James Joyce nos trópicos. Editada originalmente na obra que contemplou o concurso de contos do SESC AM 2008, e lá se vai tempo. Aqui, é publicada a versão estabelecida pelo autor em tela.

- Outra vez?

- Outra vez não, essa é nova.

- Ah, esquece!

No pensamento do jovem Carlos Silva, o pôr-do-sol era uma manhã para uma morena aurora. Seus olhos deitavam-se juntamente com o sol do entardecer e seu coração entoava músicas de uma alegria que não se nostalgiava pelo dia já findo, mas que sorria para a lua que despontava, seminteira, entre as nuvens pintadas azul e branco. Tanto isto era verdade, que ele costumava escrever em seu caderno coisas do tipo:

"ó, doce anoitecer, que põe o sol em repouso e veste o céu de resplandecente negro, traze contigo a face clara da lua, para que em minha alma despertem todos os sonhos pelo dia adormecidos..."

Após cravar essas palavras no papel, Carlos olhou para a esquerda. Esquerda sim! É o que dizia a criança ao erguer o braço para o tio, um braço bem pálido, que chacoalhava sem parar.

Risos, risos e risos nas bocas das quatro meninas tocadoras de flauta. X-salada com suco de acerola. E catchup e maionese.- acho que vou à ópera.-o que toca lá?-não gosto de ópera, carol pensou, o pessoal cantando, e todo aquele tempo sentada na maldita cadeira do teatro, que faz um crec-crec resmungão toda vez que movo um dedo.-ah, mas a gente pode ir ao cinema.-Wagner.-eu não gosto de ópera.-me passa o suco?

E Carlos Silva virou-se para o centro da mesa, onde sua coca-cola o esperava ansiosamente, saltitando inúmeras bolinhas de gás.

- eu acho que o Largo de São Sebastião não representa a verdadeira cultura do povo amazonense. É um devaneio forjado por nossos governantes. Vemos aqui um monumental teatro, lanchonetes com nomes em língua estrangeira, clássicos de cinema, peças encenadas ao ar livre. E onde mais? No resto da cidade não há isso, ou seja, estamos no meio de um grande hífen, um parêntese que não se contextualiza com as nossas tradições. Vamos encarar os fatos: nosso povo tem mau gosto! Aqui é a terra do boi-bumbá e do forró, do jaraqui frito e do tucumã. Se temos que fazer algo que reproduza a cultura de nossas região, então que reproduzamos o mau gosto, o vulgar, o comum. Senão estaremos falando de qualquer povo, menos do deste lugar aqui. Você não concorda comigo?

- Creio que sim.

- Este festival de ópera, por exemplo. Isto é puro delírio! Ninguém aqui dá a mínima pra ópera. Eles estão se lixando pra isso. Se comparecem nos espetáculos é por mera curiosidade, porque consideram isso chique, ou porque acreditam que indo pra uma ópera vão automaticamente deixar de ser cabocões. Mas não adianta. Nasceu aqui, amigo, vai ter de comer peixe com farinha até o fim!

A menina não pára de pular corda. Está há mais de uma hora saltitando com as sandalinhas que fazem plec-plec, um segundo ou dois, plec-plec, num barulho meio parecido com o das sandálias do frei, que foi fazer ninguém sabe o que pelas bandas da Getúlio. Roberto, Diego e Fabrício, ainda com a farda da escola, olharam risonhamente para ele e sua pressa, e assim gritaram por conta de sua anuviada barba:

- vai Noé!

O frei até viu quando os meninos correram para trás da banca de revista. Pensou em ir pegar eles, mas dissuadiu-se disso, pois estava muito apressado querendo fazer seilá o que pelas bandas da Getúlio.

No horário que os meninos vão para a escola, também marcham os trabalhadores do centro. Eles vão apressados. Botam os pés no cinzento piso do largo e nem se dão por isso. E nem ficam pensando que no lugar onde estão acontecem vários espetáculos, que as lanchonetes são boas, ou que o monumento na praça é muito bonito. Não, eles não se importam com isso. Apenas lhes interessam os minutos que passam e contra eles estão correndo, e eles lutam, lutam, lutam muito para sair o mais depressa de lá.

É quase uma música grosseira os velhos endinheirados fazendo ah ah ah! na mesa, se empanturrando de tira-gosto e cerveja. São displicentes. Falam displicentes, e displicentemente desprezam tudo a seu redor.

- Tem um real tio?

- Não. Tu não devia tá em casa? Cadê tua mãe moleque?

- Ei tu, traz mais duas.

- Tu pode me dar licença?

- Ei tu tu tu!

Os velhos olhavam para o mundo como se fosse decoração.

É quando no meio dos passos um diminuto projetor lançava raios prateados por entre as frestas dos olhares do público que quietamente sentia o vento e assistia ao Crepúsculo dos Deuses. Ali, sentado, o jovem tentava conter as prementes batidas de seu coração que saltitava cada vez mais e mais ao ver aproximar-se o tempo da vinda de sua amada.

Ansiava por fazer algo diferente. Não queria que fosse como sempre: "como posso sentir algo tão grandioso e agir de modo tão comum? Não, eu preciso de mais. Preciso mostrar-lhe o quanto que posso ser intenso. Não pensar mais, apenas vivenciar o instante conforme minhas vontades e sensações. Eu posso tomá-la nos braços, e arrancar-lhe um beijo lá no meio da tela, diante de todos. Isto apenas para dar testemunho da grandeza do amor que por ela sinto".

O jovem continuou sonhando.

"sim, eu poderia dizer-lhe coisas belíssimas. Declamar um poema, de Neruda talvez. Depois, eu seguraria suas mãos, e dançaríamos apaixonadamente nossa canção silenciosa. Eu poderia dar-lhe flores, flores, por que não? Toda mulher merece flores. Eu a beijaria, cantaria meu amor à noite, faria gestos inusitados, como carregá-la nos braços. E que importa se alguém risse de nós? O importante é que para mim seria belo, mais belo do que qualquer dia já vivido sobre a terra."

O jovem não teve mais tempo de sonhar, pois a moça já se aproximava. Ele ergueu-se, olhou para ela com um sorriso, e seu coração saltou ainda mais intensamente. Ele se aproximou, respirou fundo e, com uma voz meiga, disse:

- Oi amor.

- Oi amor.

- Vamos comer uma pizza?

- Tá bom.

- O que você tava pensando quando eu cheguei? Tava tão sério. Era algo importante?

- Nada amor. Só tava tentando prestar atenção no filme.

E eles seguiram para a outra ponta da praça, onde ele pediu uma pizza à moda portuguesa, que é o sabor de que ela mais gosta.

A velha solitária atira pipoca aos pombos. Não tem mais distrações nem outros afazeres. Isto é tudo o que há a fazer.

Caminhando, vagarosamente, ela rememora os inúmeros momentos de sua vida já tida. A infância, quando podia tudo. Sua adolescência, as festas, a bebida, os amores irrealizados, os passos leves que acompanhavam a música, o grito na hora do parto, a beleza perdida.

Agora são tudo cinzas. Restam apenas as recordações meio apagadas daqueles dias longínquos, do devaneio misturado à lembrança, da névoa que se junta ao pó. Não há futuro. Nada existe a sua frente, salvo a lenta marcha para a grande escuridão.

Sentada à beira da pista, ela fica imovelmente concentrada, o olhar perdido no tempo, pensando.

Pensando nos dias ensolarados que não poderá mais ver, nos doces sorrisos que lhe dão e não serão mais devolvidos, no suave curso dos dias que passam e não voltarão jamais.

- Um, dois, três, quatro.

- Ah ah aha ah!

- Não, agora é minha vez.

Já era noite.

- Eu só quero comer um bolo. E tu, tu quer o quê?

- Bem..., ei Fábio, volta pra cá! Não vai correr na frente dos cavalos!

Dlin! dlon! Dlin! Dlon!

- Você me ama?

- O sino toca de quinze em quinze minutos. É verdade. Hã? É óbvio que não. Eles devem ter algum mecanismo pra fazer o sino ficar tocando, senão ai do cara que ficasse ali o dia todo!

- Quando vai ter ópera?

- Pipoca! Eu quero pipoca!

- Eu venho aqui muitas vezes.

- Do you want?

- É claro que sim.

- Rapaz, vamos tentar fazer o que der, o resto a gente deixa pra depois. Não adianta tentar resolver tudo de uma vez.

- Também acho. Mas é que já estamos quase sem tempo.

- Ó, ali está um lugar. Aquela senhora já está saindo... vamos logo lá perto (...) bem, sentemo-nos.

E Carlos Silva continuava esperando o poema. Mas esmoreceu quando viu cair a última mecha de sol. Então percebeu que nada poderia mais ser, que todas as cores daquele dia já estavam em seu caderno. Inesperadamente, seu coração escurecera com a noite, e sua alma encontrava-se num total silêncio, adormecida. A única coisa a fazer era partir.

Mas as crianças agora é que brincavam, pulavam, salamalequeavam. Enchiam a praça com longos e alegres sorrisos. Seus rostos luminosos se confundiam com as lâmpadas e com o luar.

- Interessante isto aqui. É completamente artificial, mas ainda assim satisfatório. No final as pessoas se sentem bem, e, se há felicidade, que mais se pode querer? O que devemos fazer é acompanhar a música.

Carlos Silva andava devagar. Desapressava os passos, movendo-se com o mínimo de esforço, por inércia. De repente, lembrou-se de um compromisso importante. Aí pôs a mão no bolso da camisa, e saiu do largo caminhando de modo extremamente apressado, os pés quase que correndo.       


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