Jeff Bezos, vítima da sociedade, por Victor Leandro

27/07/2020

Têm causado comoção as notícias que dão conta de que, em plena pandemia, o magnata dono da Amazon e outros bilionários ampliaram exponencialmente sua fortuna, a despeito de todo o abismo econômico que circunda a crise sanitária, bem como os prejuízos humanitários causados pela mesma.

Tal cenário ajudou a criar uma onda de antipatia para com essas figuras. De uma hora para outra, a opinião pública parece ter descoberto a obscenidade de se faturar rios de dinheiro enquanto famílias contam seus milhares de mortos por falta de um leito médico. Os jornais se enchem de matérias sobre esses novos algozes insensíveis, e a população começa a mover-se para cobrar ao menos algum tipo de retratação moral por parte dos magnatas.

Mas, será que essa é a maneira mais válida de reagir a tais fatos? É essa individuação da culpa que realmente poderá resolver o problema? Sem querer livrar a cara dos exploradores, o que parece que existe novamente é mais uma artimanha ideológica pretensamente ética para atacar os ultramilionários, a fim de proteger o sistema que os produz. Assim, a falsa solução surge bastante simples e satisfatória. Eliminem Bezos e seus semelhantes, e as coisas voltarão a andar normalmente. Ninguém precisa ir para além disso para sentir-se bem. Tudo se resume ao tema limitado da vingança.

Ou então poderíamos deixar de odiar tais sujeitos para romper com os fenômenos que os criam. Da mesma maneira como enxergamos - ao menos a parcela de nós socialmente crítica - os crimes praticados cotidianamente como sintomas de uma sociedade estruturalmente defeituosa, também deveríamos olhar para a apoteose de tais nomes como o corolário de um regime desigual, em que até os beneficiados não são capazes de agir de maneira diversa de como são. Logo, o problema encontra-se em derrubar o edifício em sua inteireza. Destruamos seus alicerces, e nenhum capitalista mais será possível. Esse deveria ser o verdadeiro plano.

Contudo, esses argumentos parecem ser muito abstratos e distantes, quando não intelectualoides e elitista. Mais fácil é não comprar mais na Amazon. O mundo já se dá por satisfeito com apenas esse gesto. O mais é radicalidade e utopia.