Intruso manual da noite adentro, por Victor Leandro

16/05/2020

A primeira regra é não tentar pensar, como quem pensa. Depois dela é o resto não ser seguido, pois que a mínima norma está desde já rompida, então nos colocamos a imaginar o itinerário fantasioso em que nos vemos do lado de fora quando na verdade estamos dentro, muito mais dentro do que nunca a gastar o piso dos quartos e da sala e a fugir da cozinha porque tudo o mais nos leva à fome, confirmando nessa hora e desse modo meio intranquilo que eu estou portanto aqui conjecturando a lista dos meus novos dissabores e inimigos, remotos amores fracassados e outros nem sequer tidos, como se no erro pudesse ter esquivado de lembrar sem ressentimento, porém, as frases ficam, a dizer que não quer nada que venha de mim, nem mesmo uma palavra a mais posto já é muito e logo é imperativo e necessário que eu suma. Não, eu não achei verdadeiramente que fosse durar além um só instante. Talvez um pouco depois do que se viu desvanecer. Mas quem diria? Tudo que é sólido desmancha no ar, e hoje, no jantar, em frente ao prato vazio, pensei que não tinha mais quaisquer amigos. Todos fracos, todos frágeis e doentes de sua própria angústia. Entretanto, ainda ninguém se matou. Interessante constatar como no desespero geral não há suicídio, no que não resta prova mais decisiva de que tudo que precisamos é do caos para estarmos bem. Eu faço essas anotações como quem corre de um gatopardo faminto. Creio que é o nome do livro de Lampedusa. Sim, está certo, já é mais do que claro que não vou para lugar algum. Essas palavras tolas são só para passar o tempo. Mas é isso a forma como fugimos do amanhecer. No meio desse destino infausto, o sono vem. Amorável desígnio.