Flordelis e o problema da representatividade, por Victor Leandro

31/08/2020

Após a série de denúncias contra a conduta e a acusação de crimes contra a deputada neopentecostal, muitos religiosos se levantaram para defender o estatuto moral de sua classe, alegando que esta não pode ser responsabilizada por um caso isolado, sendo portanto inapropriado estender a censura justificada contra a pastora aos demais membros da comunidade.

Curioso observar como um setor tão habituado a fazer generalizações negativas contra diversos grupos, em especial os LGBT e os membros das religiões de matriz africana, agora apela para o argumento que sempre combateram. De todo modo, por mais oportunistas que sejam suas colocações presentes, elas acabam por levantar uma questão relevante: pode-se discutir o caso Flordelis como um problema geral da subjetividade religiosa ascendente no país? Se sim, em que sentido?

Ora, qualquer progressista entende - só os sectários não sabiam - que, independente do caráter do meio de que se faça parte, uma pessoa pode agir contrariamente a seus desígnios - aqui, nem vamos entrar na noção estapafúrdia reversa de que o indivíduo, em vista de suas escolhas sexuais ou etnia, é inevitavelmente um criminoso ou algo do tipo. Logo, é totalmente desarrazoado formular preconceitos de qualquer ordem contra quem quer que seja por sua mera filiação identitária. No entanto, o caso da parlamentar guarda uma particularidade, posto que ela não somente ocupava um lugar de destaque em seu ambiente, como também arrogava em seu discurso uma grande superioridade para si e para os seus em relação às demais pessoas, tornando-se desse modo o propulsor de uma imensa farsa moralista.

Mas, o que as igrejas têm a ver com isso? Bastante coisa. Como proprietárias e mantenedoras acríticas dessa lógica de discriminação, elas facilitam sobremaneira os meios pelos quais tais figuras ascendem, não somente ratificando como também conferindo ressonância as suas manifestações. A rigor, não se pode dizer que a deputada enganou os fiéis, pois eles sequer se deram o trabalho de verificar o que ela dizia. Bastou assumir o discurso dominante com habilidade que ela progrediu. Assim, o que persevera entre estes é uma cumplicidade omissa, que não interroga a respeito dos que se identificam com eles enquanto açoitam diariamente os que lhes são estranhos.

Sobre isso, todos são responsáveis. Todos participam da mesma campanha de hipocrisia. Se querem validar sem exame os dizeres e a ética dos sujeitos, que o façam no mínimo em relação a todos. Assim, ao menos a coerência seria salva nesse mar de sofismas. No mais, resta tentar recuperar o humanismo originário de Cristo, que buscava a compreensão antes de qualquer julgamento. Esta é uma lição que os supostos cristãos mais atuantes parecem ter sumária e deliberadamente esquecido.