Filofagia, por Victor Leandro

16/12/2020

Filofagia

Serge tem um problema. Suas amizades não duram muito. Mas não é como o que ocorre com a maioria. As coisas se dão de forma inusitada.

Porém Serge também gosta de palavras e, em um de seus exercícios terapêuticos, surgiu uma -ao menos segundo ele pensa- para seu diagnóstico: filofagia.

Por filofagia, ele entende a capacidade do indivíduo de consumir suas amizades, de devorá-las para depois nada restar. Pensou em outras coisas, mas nada se enquadrou tão bem ao seu caso quanto essa patologia.

Não parou por aí. Num exercício de anamnese, mapeou os sintomas e a evolução do quadro, a fim de patentear a descoberta. Desse modo, revisitou a memória e traçou uma lista dos episódios que evidenciam o problema, organizando-os em ordem cronológica.

1- Meline e ele tinham quinze anos quando teve sua primeira experiência sexual com ela. Óbvio falar que foi seu primeiro amor, pois quem não se apaixona pelo sexo? No entanto, as coisas desandaram quando ela disse, de passagem, que não simpatizava muito com seu ator favorito. Desde aí, o ocaso ficara instalado. Passaram a se falar belicosamente, cada vez com mais ímpeto, até que um dia passaram a não se falar com o mesmo ânimo que tinham quando estavam em conflito. Estupidamente, ainda ligou para ela.

-Eu te amo.

O que não resolveu nada. Ou melhor, tornou claro que o romance e o que mais havia entre eles tinha acabado. Assim, não lhe falou mais. Alguns anos depois, encontraram-se por acidente num shopping. Ela sorriu. Ele deu as costas.

2- Roberta durou muito menos. Dois dias, três? Não sem lembrava. O fato é que conversaram durante manhãs e tardes inteiras, depois nada. Fez todas as perguntas, ouviu todas as respostas, e sabia que depois disso a amizade entre eles estava esgotada. Nesse instante, teve a primeira intuição a respeito da doença - ou o que quer que fosse -. Não era natural que uma amizade promissora terminasse com tão pouco tempo. Por outro lado, via a relação como uma experiência densa, o que o fez pensar numa voragem que devassasse o que havia entre eles, e que esta partia dele, que não se sentia capaz de deixar coisa alguma para depois.

3-Pedro durou bastante até. Companheiro de futebol e de noitada, a amizade progrediu até os primeiros anos da fase adulta. Mas a coisa se rompeu quando ele lhe falou algo a respeito de noções políticas. Há uma diferença cultural aqui, pensou. E havia. Claro, ainda insistiu, tanto porque não queria parecer um esnobe, mas o fato é que não sobrou pedra depois daquilo. Era como se as portas do novo mundo estivessem abertas, mas não para seu amigo, um triste peso a ser deixado para trás. Quando percebeu que afundaria se o carregasse, largou-o sem clemência. Também o encontrou muitos anos depois, ensaiaram um diálogo, sem sucesso.

4-Lilian, como poderia não tê-la amado? Lilian e Serge, os cavaleiros heroicos da Sociologia Crítica - aqui, suas anotações perdem o pouco que tinham do caráter pontual e objetivo, e caem no juízo de valor descarado, mas que não compromete totalmente a análise - que andavam juntos por todas as partes, sem serem no entanto amantes, mas falando-se, rindo dos outros, enquadrando-os cada qual em seu tipo e sendo felizes com isso. Um perfeito casal das humanidades. Foi ela que percebeu primeiro os sintomas da amizade consumida, e passou a evitá-lo, pois sabia das impossibilidades de que algo novo viesse à tona. Mas ele insistiu, porque não sabia, e também não sabia que a havia magoado inúmeras vezes, em especial quando desdenhou de suas outras relações. Farta dele e de seu modo de se ligar que conduz a sensações intensas e imensas, levando-as ao limite para depois esvaírem-se num tédio pós-gozo, soltou-o sem mais, o que, pelas conhecidas leis de ação e reação, deu sobrevida aos seus interesses, até que tudo se encerrou em discussões, livros e artigos rasgados.

5- Lena dura até hoje, mas o que tinha entre eles acabou. Moram juntos e arrastam-se numa amizade demorada, um prato vazio. Fez de tudo com ela. Amou-a em noites frias, foi confidente, iludiu-se com promessas de amor inexistente, e eis que chegou ao ponto em que não quis mais nada, o preciso instante de atuação do seu mal.

Nas próximas férias, ela visitará os pais em outra região. A passagem já está marcada. Ambos sabem que não irá voltar, mas não se comentam isso. Ele também sabe que eles poderiam ter dado muito certo, não fosse seu problema e sua completa impropensão para resolvê-lo. Uma pena.

Serge encerrou aí seu registro, considerando ter um número suficiente de casos - ou sintomas- para diagnóstico. Pensou que seu estudo carecia de cientificidade, já que não tinha sequer um método pelo qual seus exemplos poderiam ser avaliados. Também lembrou que em suas buscas eletrônicas não havia um mínimo relato de doença parecida, e o que chegava perto surgia sob outro nome. Refletiu um pouco mais, já próximo da meia-noite, e decidiu que não tinha feito senão escrever um pouco sobre suas amizades perdidas. A filofagia não teria qualquer fundamento.

Ficou nele um lume de possibilidade, uma desconfiança confusa e imprecisa, junto à ideia de que quem sabe estivesse no caminho para algo grande, uma descoberta revolucionária, para a qual suas palavras não estavam, e provavelmente nunca estivessem, prontas para enunciar, como os versos de uma canção ouvida numa língua já extinta.