Fidelidade

16/02/2021

Por Victor Leandro


Há dezesseis anos ali vivia, em contumaz companheirismo, o cão. Perto do dono, procurando afagos, rosnando para suposto inimigos, afugentando os que pretendiam roubos, lá estava ele, sempre de um lado para o outro, ou ainda quieto em horas de sono que não se viam.

Mas aconteceu de adoecer. A família logo o notou amuado, sem ânimo. Pensaram que iria melhorar. Não melhorou. Foi a vez de chamar um veterinário.

-Vou aplicar glicose.

-É grave?

-Acho que sim.

- E o que é que ele tem?

-Idade.

Deixou telefone, endereço e remédios, e encarregou-os de avisar de alguma piora. A família, envolta em desassossego, cuidava dele como nunca. Fazia-lhe os pratos preferidos, acolchoava-no em almofadas novas, abundava afagos e esperava a convalescência, que não vinha. Angustiava-se mais o patriarca. Criara o cachorro desde nascida, e a ideia da perda não lhe era aceitável de maneira nenhuma.

Deitado, absorto, o cão parecia refletir sobre o que fizera, o cuidado com os donos, as fugas esporádicas, as brigas na rua, as cadelas e a inquietação do cio. Pensamentos de uma vida que então todos achavam que lhe corriam na mente e davam algum alento. Não fora uma existência desperdiçada.

Eis aí que voltou um dia a andar pelo pátio, lento, mas regularmente. Um sorriso abriu-se na casa. Vendo a reação do animal, o patriarca não se continha.

-Ainda vai durar muitos anos.

Frágil engano. Numa tarde de muito sol, caiu na grama e começou a latir baixo e a reclamar de dor. Os que estavam em casa correram rapidamente em socorro. A mãe, tendo guardado o telefone do veterinário, ligou prontamente.

- Chego em 20 minutos.

Deitaram-no à sobra, e deram o que beber. O cão olhou-os lânguido, como quem suplicasse um alívio, e depois fechou os olhos. Os movimentos foram rareando. Os filhos esfregaram a comida em seu focinho, mas sem resposta. Aplicaram os remédios, e ficaram todos ali estáticos, esperando uma reação.

A mãe olhou para o relógio e viu que já passava de vinte minutos, e apanhou o telefone novamente. O homem atendeu, e ela agradeceu a ele pela presteza e atenção dispensadas. Depois pediu que regressasse.

O veterinário, afinal, não era mais necessário.