Feito Carne, por Luana Aguiar

26/05/2020

Vânia sentou no sofá da sala e tomou um café coado como de costume. Era uma manhã fria. Seu ventre doía suavemente, mas não se preocupou. Passaria logo. Com as pernas cruzadas e a xícara sobre a almofada no colo, observou a janela entreaberta e imaginou o mundo do lado de lá, onde nada parecia ter mudado desde a noite anterior. Apenas a jovem mangueira que, no outro extremo da rua, exibia, finalmente, pequenos frutos como se tentasse dizer, como uma mãe tímida e entusiasmada: "vejam, venham todos! são meus filhos nascendo...". De resto, era a mesma antiquada e monótona rua em que vivia há quase quatro anos.

Ela sabia que, no entanto, muito havia mudado ali dentro, ali onde agora, sentada no sofá, tomando o seu café preto, olhava ao redor e se esforçava para chamar de casa. Ali onde por tanto tempo se dedicou, como um monge a sua religião, deixando-a limpa, farta e bem cuidada. Mas agora tudo parecia, de certo modo, distorcido e indiferente. Sobre a cômoda, ela observava o porta-retrato colorido ainda com a fotografia das bodas de trigo, e o relógio pendurado logo acima, como um inquisidor, denunciava-lhe o tempo perdido.

Olhou para as almofadas com rosas em bordado, uma sobre a qual descansava a xícara de café, e lembrou do último aniversário quando as ganhara de presente. Não lembrava de quem, mas lembrava da pequena festa. Família, uns poucos amigos e o homem que há menos de um dia chegou a chamar de marido: estivera feliz. Convidativo, o tapete em frente a porta da cozinha a chamava para mais um dia de trabalho como se fosse um dia comum, assim como um tapete vermelho se estende a uma rainha. Para ela, os poucos móveis e os pequenos objetos da sala, cúmplices do crime, pareciam ter combinado entre si aquela estranha atmosfera que agora lhe causava, ao mesmo tempo, nostalgia e dor.

"Tu é uma vagabunda". Essa era uma das poucas sentenças, proferidas na noite anterior, de que Vânia se lembrava. Depois da noite de sono, muito havia ficado borrado em suas esparsas lembranças, chegando a fazê-la pensar que talvez tudo tivesse sido um longo e triste pesadelo. Talvez tudo fosse uma invenção dos hormônios também, ela pensou, pois já havia escutado tantas histórias de mulheres como ela, naquele estágio da gestação... No entanto, sentiu uma leve fisgada em sua volumosa barriga e uma dor no baixo ventre novamente. Não, não tinha sido um sonho. Percebia que um pequeno hematoma também estava ali no seu braço para lembrá-la de tudo.

Levantou-se do sofá e foi até a cozinha. Olhou para o chão tentando refazer os passos daquela noite. Sexta-feira, dia de bola e confraternização do marido com os amigos do trabalho, e ela na cozinha preparando uma sopa quando ele chegou cambaleante. O portão ainda tremia pelo grande estrondo enquanto ele entrava e dizia "tu é uma vagabunda, Vânia, tu vai ver só". Ela não lembrava mais quanto tempo aquela discussão havia durado, mas lembrava que muito se gritou. Talvez os vizinhos tivessem escutando tudo com as orelhas atentas em suas janelas, tentanto descobrir o motivo da grande briga. Ela sabia, também, que eles deveriam ter escutado todas as outras tão altas quanto aquela, mas nunca nada fizeram. Vânia lembrava ainda do fim de tudo: estava cortando os pedaços de carne quando ele lhe levantou a mão e a agarrou pelo braço com firmeza, como se tentasse aliviar o desejo reprimido de lhe bater no rosto, e ela, num movimento automático, virou-se com a faca na mão e fincou-lhe a lâmina no estômago, passando de uma carne crua, agora, a outra.

Vânia deixou a xícara de café vazia na pia, vestiu uma roupa e pegou o carro. O corpo dele ainda estava estendido no chão feito carne.