Facebook tóxico, Instagram agrotóxico, por Victor Leandro

23/07/2020

Claro, isso é bastante evidente. Sem dúvida que nem um deles é uma rede social, a começar por que têm um dono, que as controla e lucra com seu domínio. Pelo nosso lado, o que prepondera é a nomenclatura de uma rede privada compartilhada, em que colocamos aquilo que nos interessa para o narcisismo de ser visto por todos. Ali - ou aqui - não há quem não queira ser notado, difícil quem se contente apenas em notar. O mundo inteiro posta e escreve, exibe-se, influencia. Pobres são os sujeitos passivos. A receptividade é o pior dos defeitos.

Nesse emaranhado difuso, há também territórios próprios para cada coisa. O Facebook, por sua vez, é a casa da política. É nele que aparecem os principais textos de confusão. Por isso, nos últimos tempos, muitos têm fugido dele, em nome de um projeto de construir uma navegação saudável. Vai para o Instagram, é o que falam. Lá só tem imagem e alegria.

Mas, será que isso é o mais salutar, o mais acertado, o mais significativo? Não é essa fuga uma forma mais profunda ainda de alienação, e que consolida por completo o esvaziamento do real já incursionado pela grande rede, fazendo com que a sua única função social relevante - o ágil debate público - desapareça inteiramente, dando espaço apenas para a falta de resistência e frivolidades improdutivas? Eis uma questão séria que não aparecerá nos links da bio.

Por certo, na dúvida, bom mesmo é estar no mundo e não no aparelho. Contudo, se cairmos na armadilha de utilizá-lo, o pior cenário é o do uso acrítico. Politicamente, estar no Facebook pode não ser nada, mas escapar para o Instagram é um nada pior ainda. No mais, todo lugar, e mesmo o não-lugar, têm ao menos um sentido se for ponto de relação para o debate público. Fora disso, o que há é a aparência falsamente boa, como os vegetais extraídos às custas de pesticidas. Aliás, se quiser debater esse problema, melhor ir ao Facebook. De resto, só cabe engolir o veneno invisível.