Esboço de autoanálise, por Victor Leandro

31/05/2020

Preciso colocado o espelho à frente. Uma estranheza. Ou como dizem, simples pura perda de tempo. Mas é melhor crer. Segue pelo caminho então de uma associação livre. Nem isso talvez. Somente algo que se parece. Palavras e palavras e palavras uma por uma porque não podem ser duas simultâneas. Confundo-me. Não não, eu deveria estar anotando. É improdutivo falar se não se pode refletir o que é dito. Então me animo, construo uma proposição. Tudo que nos revelamos não passa de narcisismo. Aqueles para os quais mais mentimos somos nós mesmos. Porque diante de um Outro, não somos tão gigantes. Provavelmente fingidos, mas pequenos. E temos emergida uma necessidade de confessar, de nos pôr ao gozo da reverberação do escondido. O olhar que em nós pousa, sua indulgência, ou quem sabe às vezes censura. De todo modo, é ridículo aqui tratar de algum sonho. Continuo, continuo. Repenso as frases que transmito em voz alta. Definitivamente, é impossível. Tudo ainda é mentira.

Mas, que válido é ser um réu confesso também na cadeira elétrica de algum estudioso que me dissecará com um caderno cortante? É nisso provavelmente um só receio. Abro o livro, torno aos conceitos. Não sei se transferência ou mais-valia. Em sua lépida indiferença, o mundo progride. Cai o espelho. Termina a fantasia.