Enterrem meu CNPJ na curva do rio, por Victor Leandro

08/05/2020

Sim, não há limite para a insensatez sádica dos empresários e vulgos capitães da indústria. A comparação entre o encerramento de empresas e perdas de vidas humanas não os constrange de nenhuma forma, muito menos o vitimismo desonesto e desprezível de quem lamenta enquanto acumula milhões. Só do que não se pode acusá-los e de não serem sinceros. Suas lágrimas caem verdadeiramente quando não se veem mais capazes de explorar os trabalhadores e extrair deles a tão desejada mais-valia.

Porém, o que mais preocupa, em termos sociais amplos, é o grau de receptividade desse tipo de discurso, e que revela o nível assombroso de mistificação em que nos encontramos. Vários indivíduos incapazes de se solidarizar com a doença dos mais próximos se compadecem ao ouvir tratarem das fantasiosas mortes dos CNPJ. Nessa lógica bizarra, o que é humano se torna objeto, e o que é objeto se converte em humano, num movimento que denuncia o delírio de consciência perceptiva que toma conta de boa parte da população em nosso quadro político. Porém, não é o caso de dizer que nisso não há ainda coerência. Quem leva a sério caixões com pedra e mamadeiras fálicas é capaz de acreditar em qualquer coisa.

Nessa ordem, se tudo isso passar, é muito provável que, dentro de alguns anos, os canais de TV exibam seriados sobre a pandemia, relatando a coragem de conglomerados financeiros na luta pela preservação de empresas indefesas contra o proletariado perverso e indolente.

Resta saber se, contra isso, haverá algum altivo Dee Brown que faça a jus à realidade do momento.

Não deixar que os poderosos falseiem a história. Está aí uma tarefa para pesquisadores consequentes.