Ensaio sobre a solidão, por Anne Caroline

14/05/2020

Embora acreditasse que não se passaram mais de quatro meses, Deyse nem mesmo saberia dizer exatamente há quanto tempo encontrava-se completamente emersa na solidão em sua forma mais pura. Sensação proveniente e difundida pelo isolamento na qual se encontrava. A consciência de tempo já lhe era uma noção abstrata e perdida desde a décima oitava semana. Havia parado de analisar as próprias emoções na décima segunda, pois na décima primeira poucas coisas já faziam sentido para se enumerar. Bem recordava, entretanto, das emoções, talvez últimas, que fizeram-lhe sentir um pouco de vida assim que tudo aquilo havia começado, aquele pesadelo que se estendia para além do sono. Daria tudo para sentir qualquer coisa agora que não fosse a impassividade de dias tão monótonos em um espaço tão limitado.

A primeira semana foi do temor e do estranhamento, impulsionados pela incerteza do que acontecia fora daquelas paredes e do caos onde o mundo parecia mergulhar gradativamente. Percebeu como aquele lugar, que agora seria seu ambiente 24 horas por dia, não podia parecer-lhe menor. Nos primeiros dias, apenas descansou, nem se recordava de alguma época em que não era preenchida pela enxurrada de sentimentos e sensações de um cotidiano agora interrompido. Estava assustada, mas precisava descansar. Nos dias seguintes, quando o medo, o cansaço e o estranhamento deram um pouco de lugar a um vislumbre de otimismo, decidiu explorar cada partezinha do lar. Tinha que buscar em cada canto uma novidade, agora que se encontrava privada de toda as singularidades do mundo exterior. Assim o fez. Assim descobriu em uma única tarde todos os mínimos cantos daquele espaço. Assim sua casa lhe pareceu ainda menor. E assim teve certeza de que não conseguiria ser feliz ali por muito tempo. Em prece silenciosa, mentalizou que aquele isolamento não durasse tanto tempo. Mesmo com medo, perseverou.

Na segunda semana tentou ser um pouco positiva. Aquilo não poderia durar tanto tempo, não é mesmo? Reformulou-se: Criou novas práticas habituais, se alimentava, fazia exercícios, brincava consigo, cantava, dançava, as vezes até conseguia pegar um pouco de sol. Tudo era novidade quando se construía uma nova rotina. E funcionou por um tempo. Um dia acordou e percebeu que essa nova rotina nunca seria capaz de preencher a sensação maravilhosa das incertezas do dia no mundo lá fora. Nada acontecia ali, e o medo e o estranhamento novamente a envolveram em seu abraço frio e sufocante. Seus únicos contatos com o externo, no momento, se resumiam nas duas coisas mais estáveis em seu novo cotidiano: a primeira eram os breves segundos com a pessoa que lhe entregava a comida. Sobre isso, até tentou algum contato a mais do que alguns gestos de agradecimento, mas vendo que não recebia a mínima empolgação do outro lado, resolveu deixar para lá. Sua outra fonte mais próxima de contato com o mundo consistia na grande janela de vidro que lhe proporcionava a visão do fluxo, cada vez menor, de pessoas que por ali passavam. Em algumas semanas, fora os horários de refeição, não via ninguém. Sozinha, chorava.

Então a terceira semana foi a da saudade. Sentia falta da mãe, queria abraçar o pai, queria passear com a família, conversas com seus irmãos. Namorar. Queria seguir sem rumo com seus amigos, viajar, explorar qualquer lugar que fosse, o mais simples que parecesse com certeza seria muito mais do que ela tinha agora. A monotonia e a falta de contato real e físico com os demais enclausurava-lhe na jaula de uma depressão cada vez mais forte, acentuada pela falta de cada detalhe da vida anterior. Amaldiçoou a si mesma pelos momentos em que não deu valor a um simples cumprimento de um estranho. Naquela semana, ela daria tudo para ir um pouco mais além do que aqueles míseros metros quadrados, onde sentia-se verdadeiramente confinada. Todas as dores do passado hoje lhe pareciam saudosos momentos insalubres pela qual ela passaria novamente apenas para se sentir viva. Até mesmo a dor era um sentimento que nos lembra de viver. Mas aquela dor que ela sentia era diferente. Era a dor do vazio. Nem ousava então forçar-se a lembrar dos momentos de felicidade, já havia escutado em algum lugar que "não há dor maior do que lembrar dos felizes nos momentos de tristeza.". Não se torturaria mais ainda. Mas as lágrimas ainda estavam ali.

A quarta semana chegou com uma onda de ansiedade latente. O desespero que fazia o lugar parecer cada vez menor, a colocava também sobre uma constante falta de ar, fazendo-a passar mais tempo sobre a margem de si mesma, como se buscasse qualquer coisa em que se agarrar, mas nada tirava ou apaziguava aquela necessidade cada vez maior de ocupar-se, mesmo quando nem possuía força o suficiente para isso. Faltava-lhe sono, mas sobrava-lhe cansaço.

Na quinta e na sexta semana, a depressão. Da sexta em diante, a esperança parecia-lhe uma ideia cada vez mais perdida. Já conseguia dormir, embora em horários completamente fora do seu habitual antes do isolamento. Então dormia. Dormia e sonhava, com o antes e o depois, com tudo que não fosse aquele momento, aquela solidão. Sonhava com as conversas e com os contatos, com os passeios e longas viagens, sonhava com o momento em que encontraria um do seus tão próxima de si novamente, com quem poderia ter qualquer tipo de contato possível, até mesmo um simples toque. Diante de tanta dor, não haviam restado nem mesmo lágrimas.

Agora, tantas semanas depois, todos os sentimentos experimentados semana após semana, dia após dia, haviam criado raízes, ocupando sua mente e seu coração ao mesmo tempo. Ela já não apenas sentia saudade, solidão, tristeza, medo. Ela era a saudade, a solidão, a tristeza e o medo. Todos os dias, o tempo todo. E nem mesmo o bálsamo dos desesperados era capaz de livrá-la disso. Não existiria felicidade plena enquanto não houvesse liberdade. Resignou-se.

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Burlando as ordens de isolamento, Lilian resolveu visitar seu local de trabalho. A desculpa era a preocupação com o ambiente, a manutenção, a vistoria da limpeza das piscinas. A realidade era simplesmente a sua total falta de altruísmo impulsionados por um tédio que ela se julgava estar sendo incapaz de lidar. Também estava curiosa, na mesma semana em que foi decretado o início do isolamento social graças à pandemia do novo coronavírus, o parque aquático havia comprado uma baleia recém capturada, que Lilian ainda não tivera a chance de conhecer. Dizendo para si mesma que tudo era por preocupação, e não apenas a mera curiosidade, Lilian foi até o aquário principal reservado às novas aquisições do local. Ela acreditava que tinha esse direito, afinal seria a treinadora da nova baleia, precisava familiarizar-se. 

Encaminhou-se até a ala norte, já com sua roupa de mergulho, e entrou na imensa sala de reflexos azuis que oferecia visão para a piscina por sua parte inferior, onde poderia observar a jovem baleia em seu novo e confortável lar. Colocando a mão na enorme janela de vidro que a separava da imensidão de água onde agora dormia Deyse, Lilian suspirou aliviada, sentindo-se feliz em seu querido ambiente de trabalho, observando a bela criatura que agora parecia tão serena. Pensou consigo o quanto valeu a pena sair do tédio do confinamento para conhecer sua nova e inocente amiga, a quem Lilian acreditava ser completamente ignorante das dores de um isolamento.