Deterioratus duo, por Victor Leandro

07/10/2020

Eu ainda penso nisso, e me lembro, certamente. Talvez demore pouco ou tarde para que se perca no devaneio de ideias e na multidão de memórias destruídas. Eu, você, fomos um equívoco renitente, dos que ficam a nos perseguir durante anos, perturbando o curso normal dos acontecimentos. Principalmente por força de nossas promessas não cumpridas, as quais sabíamos, pelo menos eu, que não poderíamos cumprir, e ainda assim prometemos, quando da outra conversa em que lhe disse que iria levá-lo pela mão para atravessar aquela nuvem de pessoas estranhas, as mesmas que você mal conhece e que detesta por princípio, e eu garanti que estaria ali para acostumar você. Porém não estive. E foi por essa razão que deixou de ir, como deixou também de fazer uma porção de coisas que na hora não tinham importância nenhuma mas que agora se mostram relevantes: assistir a um ensaio, comentar uma linha difusa. E é graças a isso que acordo às vezes num breve ruído da noite com sua voz a me dizer que fui um erro, que não deveria ter sequer começando a entabular isso, no que lança como dardos apontados em mim toda a culpa, e fico em silêncio, guardo sozinha a resposta a esse respeito, pois sei que sem dúvida você não a suportaria, como de resto nunca suportou uma frase minha, um afeto terrivelmente frágil, um rapazinho de vidro, que eu quebrei muitas vezes até quando me omitia de dizer qualquer coisa. Você sempre condenou minha impassibilidade, achava-a opressiva e estranha, no que mal sabe que foi somente nela que lhe tive apreço, que guardei os melhores sentimentos e a minha consideração. Bem, desculpe se falo dessa maneira. Não tem outro jeito. Já estamos por demais adiantados para retroceder aos primeiros instantes, àquelas míticas horas em que nos abraçávamos e éramos nada além do que dois jovens apaixonados e ridículos, sim, porque o amor no final é ridículo, isso foi você que me explicou.

Escrevi essas palavras e por certo não irei enviá-las. Porque de resto você daí já entendeu tudo. Não há mais o que nos sobre além da banalidade de um epílogo. É assim que está. É assim ficamos.