Destruindo a manhã, por Ismael Gomes

25/08/2020

Um gado sozinho não destrói uma manhã.
ele precisará sempre de secretarias de educação para formar novos gados e para matar quem não quiser ser gado.
Precisa sempre de mais gente disposta a aumentar o gado.
Precisa de reitores e gestores que aceitem e perpetuem a condição de gado,
De um que sufoque gritos de insurgência.
De alguns gados que dizem não ser nem de direita nem de esquerda,
mas agem de forma parasitária, aproveitando-se da resistência
e da luta de quem não quer ser gado.
De gado que tente humilhar mostrando sua carteira de gado e sua conformação em ser gado.
Que acione gatilhos e botões típicos de gados para matar a própria possibilidade de não mais ser gado. 
Que celebra e louva quem faz churrasco com a carne do próprio gado. 
E de muitos outros gados que se cruzem
e desfaçam os fios de sol 
para que a manhã, até a mínima luz de razão,
se vá obscurecendo, destruída entre todos os gados.

Precisa de um gado que se encorpa em tela, com suas falas e tom de voz pomposamente gadificante, entre todos,
para entreter outros gados.
Um gado que jamais queira uma manhã livre de armação.
Um gado que nem sequer desconfie que possa existir uma vida que não seja a de gado.
Gado que jamais olha para si. 
Que não quer nenhuma luz. 
Não quer que suba nenhum balão.




(Publicado no livro Educação Apedrejada)