Desrazão, por Victor Leandro

12/01/2021

Sando queria enlouquecer e não sabia como. Desde pequeno, a ideia de abandonar a lógica normal por completo o atraía. Bastava olhar para um esquecido na praça, falando solitário entre as estátuas de bronze, que algo aflorava dentro de si. Queria ser louco, ficar sob olhares de estranheza. Quando chegou à adolescência, contou o desejo à mãe.

-Não diga bobagens.

-E por que não? Eu quero ser doido.

-Ninguém pode ser louco por vontade. Não se escolhe isso. Agora vá para a

escola.

Embora não levasse em conta o que dizia sua mãe, teve de concordar com ela daquela vez. Ninguém escolhe ser louco. A loucura de que falam as canções e poemas não passa de uma lucidez vacilante. Esboçar, mesmo que palidamente, um discurso sobre a insanidade já é prova de domínio mental. Malucos autênticos não pensam sobre sua irracionalidade.

Mas como tornar-se louco? De pronto descartou as alternativas violentas. O resultado poderia ser bem diverso do esperado. Experimentou as drogas, mas se viu sem disposição para continuar depois das primeiras tentativas. Deveria haver uma forma mais rápida e eficiente.

Começou a se perguntar qual seria o caminho tomado pelos insanos, o que fizeram eles que os tornou dessa maneira. Vasculhando os casos históricos, não encontrou um exemplo que parecia lhe valer. Os relatos de demência que identificou eram todos aparentemente involuntários, uma obra do acaso, sem nenhum caminho a ser percorrido.

Resolveu procurar um médico. Como não conhecia nenhum, marcou uma consulta com o psiquiatra, a fim de questioná-lo acerca do tema. Os quatro primeiros se recusaram a continuar as sessões. O quinto afirmou que ele não tinha o que procurar. 

- O simples fato de você querer ser louco já avisa que você não é normal. Está no caminho certo para o seu objetivo.

Desanimado, cansado de perseguir uma meta que se afasta a cada instante, deitou-se na rede e embalou seu sono, que não vinha. Olhava para o céu enquanto pensou que o mundo era um lugar absurdo mas bastante lógico, e que nós nascemos predestinados a compreender a linguagem obscura com que a realidade se desenha, e que somente poucos afortunados tinham a sorte de desfazer esse ciclo de entendimento.

Sando passou os anos, fez muitas coisas, desistiu de outras, porém não enlouqueceu. Já na meia-idade, conseguia sem nenhum esforço pensar os fatos tais como se davam a todo mundo. Por vezes, quando não tinha outros afazeres, sentava-se no banco da praça, a mesma que costumava a visitar na infância, e ficava a espreitar os segredos que os esquecidos compartilhavam com as estátuas de marfim, as frases de uma conversa localizada para além de todo sentido.