Crônica: Rua Liberdade, por Miller Brito

17/08/2020

O sol ainda estava escondido, mas o calor não estava nada tímido. Uma quinta-feira normal, cada um seguindo seu rumo... Mas nada poderia ser normal.

No dia 13 de maio de 2020, a rua Liberdade deveria estar em pleno isolamento social, pois a COVID-19 havia invadido alguns lares. Talvez por isso as festas estavam rolando em plena 06h da manhã.

No momento em que eu regava as plantas do jardim, foi possível ver um homem passando na rua, sem usar máscara, debochando da situação, comentando que o vírus era uma invenção para vender matéria e prejudicar o governo. Percebi que ele espirrava, mas deveria ser a gripezinha que ele tanto acreditava.

Enquanto eu tomava café, também aproveitava para assistir aos noticiários. Eu escutava falar em números, mas visualizava milhares de corpos amontoados. A mistura de café e açúcar ficou com gosto de sangue.

As pessoas passeavam aos montes. Cabia a mim, apenas questionar seus motivos. Por que não usarmáscaras? Seria mais vantajoso chegar bonito ao outro plano?

A geladeira estava vazia, dispensa vazia, esperança quase vazia. Hora de ir ao supermercado. Morrer de COVID-19 ou de fome não era o plano. Mas confesso que o horror foi quase que comparado à morte. Pais com seus bebês sem nenhum tipo de proteção. Abate instantâneo.

Um amigo me liga para falar de outro que não mais vai ligar, um parente chora por outro que nunca conheceu. Não sei lidar com a morte. A alma chora, a consciência pesa demais. É impossível não lembrar dos pequenos atos não feitos por causa de um orgulho mesquinho.

A tarde chega, os números aumentam, as minhocas se alimentam.

Enquanto estava jogando o lixo na lixeira, ouvi uma menina chorando. Tão frágil, tão pequenina, acabara de perder alguém. Quem? Isso me chocou ainda mais. Como eu era tão frio por agradecer por estar vivo, enquanto a pequenina chorava por alguém? Sondei os vizinhos e terrivelmente chocado fiquei com o que foi revelado.

O homem que pela manhã passou zombando do vírus não estava com uma gripezinha. Ele não mais poderá mudar de opinião e a pequenina nunca mais abraçará o pai. E eu continuarei indagando: nós somos o vírus da natureza? 


Texto publicado originalmente no blog: 

https://www.escrevendoaeternidade.com/2020/08/cronica-rua-liberdade.html?m=1