Crônica: Fantasmas Sem Lar, por Miller Brito

17/02/2021

É estranho sentir-se um estranho no lar que é o seu lar. Ou deveria ser. Mas isso não vem ao caso.

Hoje foi um dia bastante peculiar. Por causa da pandemia as minhas férias (refúgio) foram prolongadas. Estou na minha terra natal, Comunidade Muratubinha.

Eu gosto da rotina daqui até certo ponto, sempre que estou no meio do rio, distante de qualquer punhado de terra, sempre imagino a ousadia do homem. É sério, viajar em um pequeno bote de madeira é levar uma vida de aventuras, pois se ele naufragar...

Digo isso porque agora a pouco, por volta das 21h, vinha eu lá da casa do meu tio, tempo nada favorável, fomos pegos por um temporal daqueles. A nossa pequena embarcação mal saía do lugar, a maresia tentava nos colocar num rito de passagem improvisado.

Confesso que fiquei apavorado, não foi o jeito que planejei morrer, pensei. Temia partir sem antes encontrar um lar para os meus fantasmas. É estranha a sensação de não pertencer a nenhum lugar. Talvez seja um processo de readaptação ou a busca por um horizonte inalcançável.

Foram 5 minutos de terror no rio Amazonas. Depois adentramos no igarapé da comunidade, mas nada de sossego. A chuva nos encurralou sem piedade.

Agora estou olhando a escuridão de uma noite que não assusta pelos ventos fortes e trovões, mas pela ausência da minha habitual solidão.