Crônica: Esperas e Trajetos, por Miller Brito

17/09/2020

Não era uma quarta-feira especial, no entanto, não era também um dia comum. Desde a chegada da pandemia, seguida pelo isolamento social, eu não mais havia visitado o Centro de Manaus.

Eu estava na parada de ônibus que fica em frente ao hospital Beneficente Portuguesa. Não é nenhuma novidade, mas direi do mesmo modo que o sol estava escaldante. Apesar de todas as recomendações, as pessoas utilizavam as máscaras como protetores de queixos. Não afirmo que todas, algumas simplesmente estavam com a sensação térmica de 10ºC e tinham a necessidade de abraçar-se como se fosse a última brevidade da vida. Quem pode culpa-las pela precaução? Procurei observar tudo com bastante atenção, tanto que só percebi que havia uma mulher ao meu lado quando ela chamou por um ambulante e comprou duas garrafas d'água. Dona de uma voz tão potente que o mero mortal que sou não ousou olhar para tal divindade, mas pude perceber uma atitude digna de grande reflexão e que certamente, eu e você passaremos a ter. Ela improvisou uma tigela e deu água para um cachorro que estava ali deitado.

Era possível ver o desespero do animal. Naquele momento ele tinha o mundo naquela tigela com água e depois, provavelmente o mundo voltaria a tirar-lhe a dignidade. Não importa com o que, mas passamos tanto tempo preocupados, ou até mesmo, colocamo-nos no modo automático, que ignoramos o sofrimento do outro, e quando percebemos, simplesmente dizemos: antes ele do que eu. É a lei da sobrevivência. Criamos nossas prisões e tornamo-nos os nossos carcereiros que perderam as chaves.

Depois de 90min de espera, finalmente eu pude embarcar no 500, nunca imaginei sentir saudades da tensão que é andar em um ônibus lotado. Estranhei o fato de ele não seguir o antigo trajeto que o levaria ao Terminal 1, pois o mesmo está em reforma, creio eu. É ano eleitoral.

O ônibus esvaziou um pouco logo nas primeiras paradas da Constantino Nery, e em uma delas, entrou um senhor que estava vendendo livros de autoajuda. Não gosto muito do gênero, mas compro sempre que posso. A atitude daquele homem de levar o livro até o leitor e facilitar o seu acesso, com certeza motivou-me a comprar uma cópia. Livro nunca é demais.

Duas mulheres estavam sentadas nos assentos a minha frente. Uma delas carregava uma bebê. Estranhamente aquela pequena criatura divina olhava para mim e fizera-me por breves instantes sonhar com a paternidade. Sim, carrego comigo o sonho de ser pai de uma menina, mas hoje é um sonho. O mundo está um absoluto caos, mantendo-se vivo graças a alguns lampejos de bondade de poucos humanos.

A viagem seguiu e chegando na entrada do Novo Israel aconteceu uma brevidade que será a eternidade da minha alma até que outro momento possa substituí-la. Eu estava olhando para as construções atualizadas quando o ônibus freou bruscamente. Olhei para dentro do ônibus e durante milésimos de segundos o meu olhar estava diante de outro olhar. A dona do olhar tinha uma máscara de tecidos finos, de cores vivas. Não interessa ver o rosto quando a alma esteve despida diante de você. Fiquei refletindo sobre aquilo e ela desceu. Tenho a certeza de que nunca mais a verei, mas não importa, pois sei que todas as esperas e trajetos me levaram àquela brevidade.




Texto publicado originalmente no blog Escrevendo a Eternidade que pode ser encontrado aqui: 

https://www.escrevendoaeternidade.com/2020/09/cronica-esperas-e-trajetos.html?m=1