Criticar no insulamento, por Victor Leandro

13/05/2020

Uma frase de Sérgio Sant`Anna que merece ficar. No mundo de hoje, há escritores demais e leitores de menos. Todos querem os holofotes fetichistas do intelectual, mas poucos se dedicam ao trabalho paciente da leitura. Com isso, muitas ideias valiosas se perdem, amontoadas que estão no emaranhado indistinto da isofonia contemporânea.

Já aqui no Norte, a discussão ganha contornos mais graves, pois a desproporção existente entre autores e leitores é ainda mais sensível. Some-se a isso o desânimo para o debate, além do estrangeirismo histórico, e o que se nota é a figura do autor tornar-se a de um louco que fala sozinho. Nada do que diz encontra a mínima resistência ou aceitação. Tudo o que suas palavras fazem é ecoar num denso vazio.

O que se perde dessa forma é algo bastante evidente. A heteronomia instalada proíbe os indivíduos de pensarem por si. Isolados e sujeitos a percepções produzidas por outros centros, ou incapazes de articular um diálogo por eles mesmos, todos permanecem como figuras pálidas a propagar os ruídos de uma realidade distante, impossibilitados que estão de olhar para o lugar ao redor a partir de seus próprios dizeres.

Mas isso também é cômodo. É mais fácil abraçar o já pronto do que construir uma visão originária de mundo.

E assim seguimos todos, cada qual em nossas ilhas de estranhas certezas. A cidade, cada vez mais insular, declina no vácuo de sua falta a dizer. Porém, não há lamento. Desse jeito, tudo é mais calmo e sem barulho, tornando bem mais fácil dormir. Infelizmente.