Conto: Namorado de Bem, por Ismael Gomes

14/05/2020

Depois de ter passado o início da noite com seu mais novo namorado, Luiza Luxemburgo, caminha de volta pra sua casa, decidida a contar para os pais que está namorando novamente. Ela se apressa. Sabe que a família Luxemburgo valoriza alguns costumes tradicionais. Seus pais sempre dizem pra ela não ficar até muito tarde fora de casa.

Ao chegar, abre a porta devagar. Todos estão na sala.

-Pai, mãe...

-Oi, filha. - responde o pai com serenidade.

-Tu demorou - observa a mãe também tranquilamente.

Luiza resolve ir direto ao assunto.

-Pois é... Eu demorei porque hoje aceitei namorar com um rapaz e eu estava me agarrando com ele até agora. - diz sorrindo.

-Olha que demais!! - responde alegre o pai.

Marina, a mãe de Luiza, quase bate palma.

-Que notícia boa minha filha! Como é o nome dele?

-Carlos. Carlos Alberto. Ele é brilhante como pessoa. Me trata super bem. Mas tem algumas coisas... que talvez façam com que a senhora não aceite meu namoro com ele.

Por ela ter dirigido-se apenas à mãe, o pai resolve deixar a conversa só entre as duas.

-E o que eu poderia não aceitar no teu namorado? - indaga Marina sorrindo.

-Bem, pra começar... Ele... no momento ele não está exercendo atividade... está naquela condição que alguns economistas chamam de desalentado.

-Como assim?

-Ele não trabalha formalmente e desistiu de conseguir um emprego formal. Ele é um Nem-Nem. Nem trabalha, nem estuda. Pronto, falei.

-E o que tem? Qual é o problema? Se precisar, a gente sustenta ele. Jesus não ensinou que a gente sempre deve ajudar quem mais precisa?

Luiza olha para o pai que concorda meneando a cabeça positivamente.

-Era só isso?

-Não, mãe. Tem mais - responde Luiza agora um pouco receosa. Bom... Ele... Ele negocia aquilo que atrapalha a elevação dos índices de pacificação social, entendem?

-Hã? Dá pra ser mais direta? Você sabe que eu não entendo quando...

-Ele... Ele vende drogas. Todos os tipos de droga. Vende e usa. Pronto, falei.

O pai e a mãe gargalham. Jorge, irmão de Luiza, que estava dormindo no sofá, acorda. Ele é um rapaz magro, muito, muito magro. Um bambu pareceria gordo na sua frente. O fato de ele ser homossexual nunca incomodou sua família.

-Jorge, aproveita que tu ta indo pra cozinha e trás um copo d'água pra tua irmã - ordena a mãe. Ela parece nervosa. E sem motivo, pelo visto.

-É sério que vocês não se incomodam com o fato dele ser traficante? - questiona Luiza.

- Virou moralista, minha filha? Jesus não ensinou a perdoar? A única coisa que me incomoda é que você enrola muito na hora de falar.

-Ta...Tem mais coisa...Ele é cristão, mas... sua vida pregressa... quando ele era... bem... ele é amigo do Ronie! E já assassinou duas pessoas! Pronto, falei! - Enquanto os pais a olham tranquilamente, Luiza pega o copo d'água, toma um gole e continua. -Ele só saiu da prisão porque o pai dele pagou. O pai dele é rico e o sustenta. Ele só vende droga por esporte, como ele diz. Mas vejam... Esses assassinatos já faz tempo. Ele ta arrependido, também frequenta igreja...

-Minha filha...- o pai de Luiza volta à conversa com voz suave - Está tudo bem. Quem nunca errou? O perdão é uma coisa libertadora. Traga esse rapaz aqui para um jantar. Nós conversaremos. O que não podemos é trata-lo com preconceito. Tem algo mais?

-Tem mais uma coisa. O Carlos é... a mente dele não funciona bem... ele... eu não sei nem como dizer... ele tem um déficit cognitivo...

-Ele é deficiente mental? Mais um motivo para perdoarmos. Isso prova que você o ama de forma pura, genuína...

-É quase isso... mas não é bem isso... Ele não tem inteligência, sabe? Nem... ele não consegue pensar... Ele... Ele é Bolsonarista! Pronto, falei!

- O QUÊ???? TA MALUCA??? - O pai de Luiza fica vermelho e trêmulo de tão enfurecido. Levanta-se e dá um soco na porta. O QUE VOCÊ TINHA NA CABEÇA PRA SE ENVOLVER COM UM BOLSONARISTA?!? TUDO TEM LIMITE!!

-Pai, calma! Eu nunca tinha lhe visto desse jeito. Calma!

-COMO VOCÊ QUER QUE ELE FIQUE CALMO DEPOIS DISSO QUE VOCÊ ACABOU DE CONTAR? -Grita a mãe também enfurecida. -O QUE DEU EM VOCÊ?? VOCÊ É BURRA? EU CRIEI VOCÊ PRA ISSO??

-Nesse momento ouvem alguém bater à porta. É Carlos Alberto. Bate mais uma vez e abre devagar.

-E aí? Eu vi o portão aberto... Eu vim devolver um bagulho teu, amor. Acabei escutando o papo de vocês e...vou me explicar, né?

-SE EXPLICAR?? SE EXPLICAR?? ISSO NÃO TEM EXPLICAÇÃO! COMO VOCÊ SE DIZ CRISTÃO E DEFENDE UM TORTURADOR?? VOCÊ DEFENDE UM GENOCIDA! - O pai de Luiza diz isso segurando o namorado da filha pela camisa, prestes a dar um soco fulminante, mas Carlos é muito forte, desprende-se das suas mãos e o empurra.

-PAI!- Grita Luiza acudindo o pai caído no chão.

-Fique sabendo que eu não sou mais bolsonarista!! Eu poio o Moro! Ouviu bem? O MORO! - Fala Carlos Alberto que agora também está no chão. O soco do irmão de Luiza foi certeiro. Aquele rapaz magro, muito magro, que talvez só não fosse levado pelo vento porque a sua roupa fazia peso, era tão forte quanto Carlos, e agora estava sobre o agressor de seu pai, ambos com metade do corpo pra fora de casa. -ME SOLTA, VIADO! - Gritava o traficante com o nariz sangrando.

-SOLTA O FLASH! - Grita o pai de Luiza lembrando-se do cachorro.

Marina já havia pensado nisso. Vinha da parte de trás de casa com o Flash e um terçado.

Mas nessa hora Carlos já tinha conseguido se soltar das mãos de Jorge e correr. O cachorro partiu atrás, mas o assassino era experiente em pular muro com rapidez.

-PORRA! O pilantra conseguiu escapar! -disse o pai de Luiza fazendo massagem no próprio joelho. -Porra, esse cachorro é muito devagar! De rápido mesmo só tem o nome! Flash...O bicho é tão lento que o nome dele devia ser justiça brasileira. Que namorado você foi arranjar hein, Luiza? Ele vale menos que o justiça! O justiça pelo menos ainda pega alguns ratos de vez em quando. Bonito pra tua cara, hein? Carlos Alberto...Você ainda o considerava brilhante. O canalha ainda disse com orgulho que apoia o Moro. Isso só prova que o Bolsonaro foi a porta de entrada pra outras drogas! Ele não sabe que o Moro foi conivente com o caixa dois do Ônix? E outros tantos crimes do presidente genocida?

Quando Carlos Alberto chegou em casa, encontrou o pai assistindo TV.

-E aí, filhão... Chegou cedo. E a namorada?

-Que nada pai... Tô fora.

-Por quê?

-Cansei da Luiza... Ela não passa de uma... uma...

-Não me diga que ela é pobre!

-Ela não passa de uma comunista vagabunda. Pronto, falei.

O que é isso, meu filho? Se misturando com esse tipo de gente?

É que eu queria levar pra cama. Ela é bem novinha. Mas não rolou. Ela foi me dando nojo com esse negócio de mais igualdade, questionar Bolsonaro, Moro...Sem falar que os assuntos dela... Cinema, música... E o senhor ta ligado, né? Meu lance é armas, academia... Principalmente armas. As de cano longo são as melhores...

É isso aí filhão! Fez certo. Não temos que mudar nossos gostos por causa desse povinho, e nem deixar de acreditar nos nossos mitos da política por causa de mulher alguma.