Conto: MARIA MADALENA - Por Edney Alexander

31/08/2020

Sentada sobre uma rua sem saída, de um penhasco para uma vista sobre o rio, perto do Porto da Manaus Moderna. Apreciava o pôr-do-Sol no horizonte... Sempre visitava quando podia, naquele mesmo horário, o cantinho que achara ao acaso que lhe rendia uma vista que acalmava seu coração. Tânia morava no subúrbio da capital amazonense, compartilhava a moradia com sua avó dona Maria da Conceição, na qual não aceitava sua presença.

- Cadê o meu netinho Carlos? Nunca mais vi meu neto, quero ele de volta! Sinto tanta saudades dele...

Dona Maria da Conceição não sabia, mas seu neto estava do seu lado o tempo todo, alimentando-o, vestindo-o, cuidado de seus medicamentos para hipertensão. Tânia a cuidava mesmo não sendo reconhecida, seu pai a abandonou com 6 meses de idade e sua mãe faleceu vítima de um latrocínio no ônibus, quando voltava do trabalho como faxineira de lar em um dos condomínios de luxo da cidade aos 11 anos.

Sempre saía de casa perto das 17 horas, recebia olhares tortos, esbravejamentos dos vizinhos evangélicos e até assobios pelo seu corpo preto e lascivo. Perambulava pela "praça das putas" ou praça da Matriz, na qual surgia a clientela a luz da Catedral de uma igreja antiga.

- Meu sonho é conhecer Estados Unidos, qualquer lugar melhor que isso aqui já basta pra mim, quero ser famosa e livre. Quando esse pesadelo vai acabar? Será que Deus não cuida dos seus? Dizia consigo mesmo na sombra de um prédio abandonado.

Sua amiga de profissão tinha se mudado para Europa depois de um cliente que tanto a visitava, a prometer em casamento e morar juntos longe daquele ambiente hostil que conhecera. Era branca como a polpa do Cupuaçu e saborosa como Açaí. "Tive foi sorte de conhecer um boy magia, amiga". Respondeu por mensagem antes embarcar no avião. É verdade que nunca foram próximas, mas estava feliz de ver sua amiga realizada, afinal é preciso ter sorte de conhecer um homem, que tenha qualidade de um cavalheiro, ou seja, corajoso o suficiente de a possuir como mulher e esposa.

Não demorava muito para um cliente aparecer, atendia com carinho e explicava o menu de diversões que ofertava. Mas sofria de visitas incômodas do Sargento Jorge, que em sua patrulha rotineira chamava para dentro de sua viatura para longe dali, para que ninguém a visse, uma vez que casado com 3 filhos com sua mulher, pegaria mal sua imagem de cafetão na corporação. Não passava de meia hora, uma rapidinha na esquina em troca de umas migalhas . Tânia odiava Jorge por várias razões, além de maus tratos e humilhações que o sargento praticava, era ofendidas inúmeras vezes quando saía cedo de casa para fazer compras no mercado.

O Sargento Jorge saia com sua família todos os finais de semana, de visitas a igreja presbiteriana com sua bíblia até o mercado municipal, sabia que encontraria Tânia naquele mesmo local no horário de sempre. Não passava despercebida nos comércios, Jorge a seguia e aproveitando da atenção que a carregava, se promovia com xingamentos, piadas para arrancar risadas dos comerciantes e a humilhava em benefício de uma imagem do policial honesto e trabalhador.

Tânia não tinha uma religião clara, ora frequentava uma igreja católica, apreciando a Nossa Senhora Aparecida, ora participava de terreiro do Candomblé com danças que tanto amava, ora cultuava solitária a Iemanjá na praia da Ponta Negra com atos de fé sobre o rio escuro e misterioso. Uma coisa era certa, acreditava que um dia algum ser Onipotente pudesse ouvir suas orações e salvar de seus pecados e amarguras e dá em seu lugar um descanso eterno.

Acordava cedo para levar sua avó ao "Caps" (Centro de Atenção Psicossocial), na qual recebia atendimento para o tratamento do Alzheimer. Gostava de estar lá, bem atendida e até tomava café da manhã com alguns funcionários que a conheciam. Mas nunca mais se viu a Tânia depois daquele dia, se passaram duas semanas e os assistentes não sabiam o que fazer, senão levar a dona Maria para o acolhimento de idosos.

Naquele fatídico dia, recebeu mais uma de suas visitas indesejáveis de Jorge, que a leva para sua viatura. Prevendo mais uma de suas brigas, Tânia desfere um golpe com uma tesoura de unha e crava no peito do sargento que acelera o carro invadindo a contramão e colidindo em alta velocidade com caminhão de lixo.

Não demorou para que uma ambulância chegasse ao local, Jorge é atendido às pressas seguindo rapidamente para o hospital com quadro gravíssimo de hemorragia. Segundo um paramédico que atendeu a outra vítima na ambulância, sofreu três paradas cardíacas, antes do quarto e último, a vítima apontava com suas delicadas mãos para sua bolsinha ensanguentada. "Eu entendi, eu entendi pode descansar!" Gritava o paramédico que puxou a bolsa e encontrou um bilhete com as seguintes palavras: "Maria da Conceição, seu querido neto sempre estará com você aonde quer que vá, com amor peço perdão por não ser seu neto que tanto sonhou, aos seus cuidados me entrego a Deus!".


*conto publicado originalmente no blog Coluna do Akile (s), que pode ser acessado em: 

https://colunadoakile.blogspot.com/2020/08/conto-maria-madalena-por-edney-alexander.html