Conto: A cada parágrafo uma cena, por Bruno Oliveira

20/05/2020

O peito explode, o coração bate intenso, os sonhos tranquilos dentro da noite fria e chuvosa se despedaçam em cima da cabeça como fagulhas. Alguém espanca a porta num pedido de socorro autoritário. A primeira coisa que Alberto M. achou foi que algum assaltante havia entrado na casa para roubar o que não tinha. O que tem para esse cara pegar se tudo aqui tá podre de velho, ele indagou, antes de ouvir uma voz feminina berrando para que ele viesse rapidamente ajudar a tirar a água suja que infiltrava a casa como uma cachoeira. Enquanto o seu corpo tremia do sono interrompido bruscamente, Alberto M. raciocinava que pobre não tem sorte: enquanto há uma pandemia lá fora, rondando com sua foice, aqui dentro, o mundo me agride com essa chuva. Maldito sofrimento que é o destino de ter nascido miserável.

Corre lá na sala, menino, rápido! Teu pai tá levantando os móveis para não serem destruídos como o antigo sofá, disse a mãe. Alberto ainda com a cara pálida de espanto chegou para perto do pai, um homem carrancudo, e o ajudou a retirar a estante de madeira para fora do alcance da água. Dessa vez o cheiro fede, o pai cochichou bem baixinho da maneira como sempre costumava falar. Sim, acho que deve ter passado pela foça do vizinho, respondeu Alberto. Estes, donos de um mercado de peixe, muito mais apessoados que a família de M., construíram um criadouro para os animais bem na parede divisória das duas casas, o que quando chovia acarretava primeiro em alagamento no quarto dos pais do Alberto e depois no restante dos cômodos. Eles não estão nem aí para ninguém, disse o pai, eles simplesmente não se importam. Visam apenas o lucro, sem medir as consequências. Ainda falamos para eles o que isso poderia causar. Adiantou? Não...

Crescia um sentimento de raiva em Alberto que, enquanto o pai comentava e adentrava mais no assunto, esfregava com força bruta a água podre para fora da casa. Filho, vai com calma, disse a mãe, assim você pode machucar a sua mão. E com voz de choro de alguém que não está acostumado a falar, mas a pensar muito, disse: mãe, se eu tivesse uma arma eu iria dar um apavoro neles. Bora ver se eles ainda iriam continuar com essa palhaçada. A gente é pobre, mas tem dignidade. Ninguém pode fazer isso com a gente. Queremos respeito assim como damos a eles. Eu sei, meu filho, disse a mãe em tom de lamento, mas seu pai ainda precisa do emprego que eles dão, é esse pouco que garante que a gente enfrente problemas grandes como esse. Outra coisa, não acho que seja delicado falarmos algo para eles agora, já que o seu Luciano pegou o vírus.... Todos concordaram. Com a morte ninguém brinca. É preciso dar afeição independente de quem seja. Então, o silêncio imperou e os dois homens continuaram a retirar a água, enquanto a mãe escapava para a cozinha a fim de fazer café.

Aquele sentimento de raiva não tão transparente de Alberto se dava pelos pequenos descasos que via acontecer constantemente. Luciano humilhava seu pai ao sugerir que só quem vence na vida é aquele que acorda cedo, que se esforça mais que os outros, ou que preto é menos inteligente que a maioria. Alberto no seu amago respondia para si mesmo: meu pai acorda cedo, seu Luciano, trabalha mais que os outros para você, além de lhe escutar sem responder tanta estupidez, e é obviamente mais capaz do que o senhor.... Mas Alberto sentia mesmo uma raiva forte daquele acontecimento antigo, quase esquecido, quando ainda era criança: a humilhação de ser acusado de roubo, de pegar comida escondida do mercadinho. Aquilo ele nunca esquece.

Enquanto adocicava a bebida, a mãe olhava fixo para a colher e pensava: pobre do seu Luciano, um homem tão bom sofrendo nessas condições. Uma tristeza mesmo ele ter pego essa gripe, que deixa todos em pé de igualdade; pobres e ricos, brancos e pretos. Para essa doença não há distinção. Mas no fundo, ela sentia que o dono do mercadinho merecia aquilo, já que nunca aceitou as recomendações, queria faturar e não deixava um dia as reclamações de lado, de fustigar as pessoas de que estavam erradas, que era frescura. A mãe cuidou logo de jogar para o lado esses pensamentos. O seu Luciano era um homem bom e pronto. Todo mundo merece ser perdoado.

Já era quase manhã cedo, quando o pai tomando o café quente se encostou na parede para descansar a costa e confessou: pelo menos não estamos na situação dos Rubens. Na chuva de anteontem, eles perderam tudo no alagamento. A menina deles quase se afagou. Imagino o que deve estar passando em suas cabeças, disse com o olhar de contemplação poucas vezes visto. O que eu acho engraçado, disse Alberto, afastando o silêncio mais uma vez, é essa nossa maneira de pensar. A gente sempre busca alguém mais desgraçado pra sentir algum alívio perante a nossa situação de desgraça. Se a gente é feio, tem aquele ali que é ridículo; se a gente não tem carro, tem aquele ali que não tem nem sapato; se a gente não tem saúde, tem aquele ali que pegou o vírus; se a gente não tem tanta fé, tem aquele ali que se matou... Queria pelo menos que algo mudasse uma vez. Já pensou que bom seria não ser quem somos? Ou um novo mundo que não fosse esse em que poucas pessoas exploram um tantão de gente? Poderíamos sofrer até por outras coisas, mas não por falta de comida, ou por violência, sei lá... Só queria que todos tivessem algo como um emprego digno, por exemplo.

Abatida e um pouco surpresa, a mãe chega da cozinha, olha para Alberto e diz: você tá até parecendo aqueles comunistas, filho, que o pastor sempre fala. Tu tens é que estudar pra ser alguém na vida e ganhar muito dinheiro. Tem que ir embora desse lugar e nunca mais querer saber dessa gente. Ser médico, advogado, um empresário igual o seu Luciano. Entendeu?

Nesse momento, a água no chão já rareava, era possível colocar os móveis de volta em seus lugares. A chuva fina anunciava uma manhã mais bonita, mesmo que igual a tantas outras. Alberto entendia o que os pais queriam para ele, mas não conseguia ser alheio aos problemas e não sabia explicar o motivo. Alberto não queria ser igual ao pai, ao Luciano ou ao que a mãe desejava que ele fosse. M. só sentia uma enorme necessidade de transformação. Sabia que as coisas não poderiam continuar como estavam. Era algo rudimentar.

Alberto ainda com o corpo meio grudento de suor por causa de tanto esforço se pôs a pensar já deitado na cama naquilo que havia mencionado com os pais: atirar no seu Luciano. Enquanto imaginava o quanto seria bom se vingar de tanta humilhação, ele ouviu a mãe tossir uma tosse meio seca como se o ar fosse insuficiente para os pulmões, mas ele não deu tanta importância. O sono o venceu.