Carpe diem no Estado ausente, por Victor Leandro

24/06/2020

Muito tem se falado, ao longo da reabertura, acerca da irresponsabilidade da população que se aglomera nos comércios, shoppings e restaurantes diariamente, aumentando os riscos de contaminação pelo vírus, no que perseveram críticas ruidosas ao caráter consumista da sociedade em que estamos.

Mas, será que não estamos simplificando demais a questão? Ou pior, que não a estamos banalizando a ponto de eximir os reais produtores dessa desordem temerária? É preciso analisar o problema mais atentamente.

Em primeiro lugar, cabe dizer que o indivíduo que vai às ruas não descumpre nenhuma norma instituída. Ora, se o Estado afirma que seu tráfego é seguro, numa lógica cidadã, nada mais adequado do que seguir suas indicações. Quanto ao cumprimento das leis sanitárias, não cabe a ele, e sim às autoridades, zelar pelo seu bom andamento. Se há bares lotados, é dever do poder público tratar do assunto. De sua parte, principalmente entre os mais pobres, já é um esforço descomunal ter de prover sozinho máscaras e álcool, para o que não recebe nenhum tipo de ajuda.

Mas, avancemos para a condenação do consumo. Num exame atento, este não passa de um moralismo pós-moderno, que desconsidera as necessidades subjetivas da maioria da população, bem como o descaso em que se encontram. Para muitos, ir a uma loja ou a um lanche da esquina é a única maneira de aliviar a angústia patológica de seus dias de quarentena, cujo fardo se tornou tão pesado que é preferível contaminar-se a continuar nessa letargia perturbadora. Isso vale ainda mais para as classes proletárias, às quais muitas vezes são vedadas várias alternativas de lazer doméstico, o qual, mesmo quando disponível, não está ao gosto de sua formação, que, na maioria das vezes, e por força de inúmeras circunstâncias, não contemplou atividades que exijam recolhimento.

Além disso, boa parte dessas pessoas já correm riscos diários, por conta do trabalho e outras obrigações. Ora, se elas podem se arriscar por esses motivos, por que não em vista do seu hedonismo? Trata-se de uma necessidade tal como todas as que o afligem. Mas claro, na ótica burguesa, isso é um acinte. Os pobres só têm direito a trabalhar. O resto é exclusividade dos ricos.

Todo esse debate, toda essa discussão em grande parte inútil, serve apenas para encobrir a responsabilidade do Estado pelos fatos em voga, que não só é incapaz de coordenar ordeiramente uma retomada da circulação, como também, num nível estrutural, não provê os indivíduos de acesso ao cuidado da saúde mental e a políticas de lazer que lhe permitam dedicar-se a outras atividades que não simplesmente fruir pelo consumo.

Mas o que esperar de lugares onde os shoppings abrem antes dos parques públicos? No fim de contas, o perigo é sempre o capital e não vírus. É sua supressão que nos falta para sairmos do consumismo. O resto é apenas o caso de uns simples ajustes.

Imagem - https://d.emtempo.com.br/manaus/206220/embaixo-de-chuva-centro-de-manaus-lota-no-1-dia-de-reabertura