Cansar, por Victor Leandro

09/11/2020

Sim, os filósofos da potência estão certos. Não se deve dar ouvidos para a melancolia. No entanto, fato é que se há sempre horas mais ou menos duradouras de declínio, em que nos sentimos assolados pelas visitas perversas do caos nadificante. Quanto irrealismo haveria em apenas passar à frente, em desconsiderar essas temporadas em que não queremos mais do que o próprio isolamento? Na verdade, o viajor intrépido, o caminhante temerário não teria como não se propor algo que não fosse o trafegar por esse vale sombrio, de onde retiraria a imagem de uma derrisão. Fora da metonímia, o que encontramos por aqui é um ano de quedas, de evanescência, de apetite destrutivo, e de uma contaminação dos sujeitos que os guia para a síndrome do açoite persecutório, dos combates inúteis, da má consciência e do ressentimento como lei do afeto. Se pensarmos bem, não houve quem entre nós tenha sido capaz de retroceder, de voltar atrás uma palavra no exercício entrópico de afirmar que deveríamos apagar tudo e retomar as coisas como antes. Porque não pode ser como antes, é o que dizem. Porém poderia. Bastava, como Nietzsche, termos cultivado as virtudes do bom esquecimento.

É o cansaço, só ele que fala. Mas é preciso afirmar que este também é vida. Respeitar, sem idealismos, o nosso mau instante. Esta é a lição fundamental de nossa época.