Cancelamento público e a mística do julgamento, por Victor Leandro

02/11/2020

O prazer mais publicamente legalizado, perquirido e propagando hoje é o de julgar e perseguir o que outros dizem. Mesmo os que condenam a prática o fazem com intenções inquisidoras e ainda mais perigosamente narcísicas. Afinal, nada mais pretensioso do bancar os juízes dos juízes, seres privilegiados e acima das paixões medíocres da média.

Porém, apesar de todos os entraves, não seria produtivo buscar uma sociedade meramente compreensiva. É somente na crítica que seu movimento dialético se perpetua para frente, e podemos construir um impulso criador. Assim, o caso é não o de fugir de tais efeitos, e sim moderá-los até encontrar pontos plausíveis.

Dessa maneira, o que provavelmente deve ser restabelecida é a medida razoável da análise. Para validar ou não posições, é preciso que fique bem estabelecido antes de tudo o critério de verdade. E qual é este? A epistemologia marxista diz-no muito bem. É somente na prática social que o real se define.

Assim, em casos como o de Haddad, em que um trocadilho mal-empregado remeteu-o a uma apologia do racismo, o que vale é olhar como aquela frase se articula com sua trajetória de ação. Dessa forma, a incongruência fica evidente, e o problema retorna ao seu limitado contexto.

Em vista disso, é que podemos considerar algo que nos soa estranhamente favorável. Nós não somos o que pensamos ou dizemos, e sim o que nossa práxis determina, mesmo quando depomos contra nós mesmos em nossos discursos.

Mas claro, aqui estamos numa situação ideal reflexiva. Na realidade, as coisas são bem menos ponderadas. Nela, perseveram nossos afetos vorazes e o gozo do açoite. De todo modo, continuamos a tentar fazer filosofia.