Brooklin 99 e uma colher de chá para a indústria cultural, por Victor Leandro

22/10/2020

O problema central do entretenimento enquanto negócio não está nele existir, mas em seus propósitos totalitários e dominantes. Fosse menos pretensioso e ubíquo, ele até poderia passar-se como um bom escape para tempos duros, um breve respiro à posterior retomada em ação. Contudo, o que ele quer é completar nossa jornada de tempo livre, avançando sobre as artes e demais formas de experiência, oferecendo pastiches deformados e anódinos em lugar de sensações autênticas. Nesse sentido, é que convém alertar-se contra esses propósitos, observando atentamente o movimento de tais intenções. E é exatamente aí que nos damos conta de que Black Mirror é muito mais farsesco e nocivo do que Friends. Porque nos engana. Porque busca ocupar o espaço de uma reflexão verdadeira.

Contudo, nem sempre há apenas lamentos. A série co-estrelada por Terry Crews é um exemplo honesto de diversão. Não que os temas sérios não estejam lá. Porém não há nenhum pedantismo que os conduza a um desenvolvimento mais grave do que o possível. Também na forma há motivos de mérito. Os episódios são curtos e pontuais. O texto não se demora no humor em linhas forçosas, tampouco as atuações - embora bastante destacáveis, principalmente no que diz respeito a Andre Braugher - se arvoram em pantomimas de gestos desmedidos. Em suma, o sitcom não tenta ser maior do que é, e nisso está sua inteira virtude, sua sinceridade e anticolonialismo para com o público.

Claro, pode-se dizer que aqui se trata apenas de um argumento ad hoc, conduzido pela subjetividade do autor do texto. Sim, é bem possível. Mas a crítica de gosto também é feita dessa maneira. De todo modo, o que vale é pensar que não existem juízos prévios, e todo objeto precisa ser analisado em sua realização. Assim, passemos ao trabalho. Quem sabe até rimos um pouco enquanto fazemos isso.