Breviário de perturbações aleatórias no ciclo crescente da pandemia e mais alguma coisa inaudita, por Victor Leandro

13/06/2020

Não sei, não sei, pensei muito, que quase nada me veio à cabeça. Uma hora estava no lugar e não vi. Algo passou, é certo talvez. Quem sabe a memória de quando fui à feira. Desde lá eu tenho febre. É o que sinto, é o que sinto. Eu disse a todos os irmãos que não chegassem perto de mim. Falaram que era muito conveniente. Tive igual o mesmo pensamento: não dirigir a voz a mais ninguém, ficar aqui em casa esperando um chamado no telefone, a dizer que tenho de novo um emprego. Porque ninguém vive com essa porcaria de auxílio. O que acham que somos, que só precisamos de comida? E nossos cigarros, como ficam? Claro que o Estado não está aí para bancar vícios. Mas as necessidades sem dúvida. Por isso, reivindico meu trago e meu gole valor-de-uso. Ainda bem que moro aqui com os outros, que somos pobres o bastante para estarmos juntos no mesmo terreno. Porque senão, eu não sobreviveria, não teria razão para existir nessas janelas e nesse silêncio que me ocupam a noite e o quarto e se quebram com os gritos de minha mãe quando o sol chega, no que me incomodo mas sinto um alívio de ficar acordado mediante a sua voz retumbante, a reclamar-me que não são mais horas e que tenho de buscar ao menos um quilo de arroz e peixe. E foi por isso que fui à feira, que estou também agora sentindo febre e sabendo então que os termômetros mentem, eles contam histórias da carochinha para dormirmos tranquilos assim como o idiota saído de um churrasco nefasto de domingo que elegemos. Quer dizer, eu não votei no dia. Dá no mesmo.

Mas bem, não é isso, não é esse o meu desconforto, o meu mal presente. Sem dúvida, trata-se de outra perturbação que não consigo dizer. Pensando bem, é muito melhor agora que tenho um vírus a nomear toda a culpa. Isso me salva muito. Mas nem sempre é o bastante. A angústia da insônia é o meu único verdadeiro inimigo pandêmico. O resto é só o mundo insano. Como um estranho na festa, eu vou em frente.