As tarefas do leitor, por Victor Leandro

24/09/2020

Sim, o autor está morto, mas nem tudo é permitido. Na verdade, isso significa que ao leitor foi conferida toda a responsabilidade em seu ato de ler, o qual pode se dar tanto de maneira revolucionária quanto tacanha e burguesa. Nesta, o que se perde é exatamente o sentido de sua tarefa, e do que faz ser algo transformativo a literatura.

Mas, o que significa não ler burguesmente? Claro que, em primeiro lugar, há a inevitável inclinação para socializar a leitura. Contudo, resta ainda uma internalidade tão forte quanto a ser pensada, e que precisa ter determinados os seus modos socialistas de execução.

É a questão do narcisismo da leitura. Ora, só quem cultua o indivíduo e seu desejo ensimesmado é a ordem do capital. Na comunidade autêntica, existe sempre o outro, o que no caso é a obra. Esta, em sua organização, possui caracteres e temas próprios, que precisam ser respeitados para que se a leia adequadamente. Assim, o leitor egotista, que só acha bonito o que é espelho, o que reflete suas ideias aceitas sobre o real, jamais poderá emitir sobre ela mais do que juízos de gosto, meras impressões com base em suas estreitas expectativas pessoais. Dessa maneira, perde a possibilidade de expandir-se, bem como a obra de espraiar-se no mundo com seus dizeres.

Dessa forma, fica claro que o leitor está vivo, porém não sozinho. Logo, é imperativo que este se amplie saindo de si. Do contrário, haverá tão só exibicionismo mesquinho, em vez de literatura. A comunidade de leitores precisa continuar a advir. Nela, é sempre a arte que triunfa.