As lágrimas de Urano, por Luana Aguiar

31/05/2020

"Fizemos tudo o que foi possível, mas...". Aquelas palavras desceram como pequenos pregos pela garganta de Célia, como se arranhando, lentamente, as paredes do esôfago, prego por prego, caindo até desembocarem no estômago. Agradeceu mecanicamente, "sim, sim, doutor, eu imagino, estava complicado mesmo e...", mas não terminou a frase, não sabia muito bem o que dizer; pensou em tudo o que já havia passado com o pai doente e todos aqueles três anos de dedicação e sofrimento se acabaram ali, dada a notícia do médico, que imediatamente fez um leve aceno com a cabeça mostrando certa empatia.

Por algum motivo o achava parecido com o pai. Teriam a mesma idade? Tentou calcular a idade do velho analisando as marcas de idade em seu rosto, contando alguns dos fios de cabelos brancos e marcas na pele. Enquanto isso, um tanto despudorado e já acostumado com todo aquele ritual, o médico a informava sobre os documentos, atestados, procedimentos burocráticos de pós-morte. Célia ouviu tudo, mas não entendeu nada, fingiu que entendeu, com a educação que lhe fora dada, afirmando com um leve movimento da cabeça para cima e para baixo, e lembrou-se que, por muitos anos, durante a vida adulta, fez o mesmo com o pai, nunca o entendeu, apesar de suportar diariamente os seus discursos filosóficos carregados de certa arrogância. Arrogância que repudiou e fugiu desde que entendera das coisas da vida. "Será que a filha do médico fazia o mesmo com ele? Não, talvez nem tenha filha ou...".

Antes que o homem percebesse toda aquela divagação, Célia agradeceu novamente pelos esforços e perguntou "posso vê-lo?". Antes de esperar pela resposta, virou as costas e se dirigiu apressada à enfermaria, mas se surpreendeu com a cama já vazia e os lençóis sendo trocados por uma funcionária. "Senhora, ele já foi levado pro...". Parou por uns segundos e olhou toda a ala dos doentes que ainda estavam ali. "Se o trânsito não estivesse tão ruim eu teria...". Injusto, pensou, mas o leito precisava ser liberado para outro homem morrer, afinal de contas, não é mesmo? E aceitou. "É, engraçado, nem morto tem conforto", disse a si mesma, com um riso triste, enquanto acompanhava a enfermeira até o local onde o corpo fora levado. Célia tinha no rosto o riso triste dos condescendentes.

Para chegar ao necrotério, era preciso sair do prédio, andar por toda a extensão do estacionamento, até chegar na portinha de metal no meio de um cubículo branco. Enquanto caminhava, Célia olhou para o céu escuro e lembrou-se de Urano. "Foi um deus incompreendido, coitado", seu pai sempre dizia, "hoje é o nome de um dos planetas do nosso sistema solar". Quando criança, ela adorava ouvir as histórias mitológicas que seu pai contava. A beleza inigualável de Afrodite, a paixão do talentoso Orfeu por Eurídice, o fio de Ariadne, o labirinto de Minotauro, a separação de Gaia e Urano, o deus do céu, que transformou suas lágrimas em chuva para a terra. Mesmo que não as entendessem muito, um dia até pediu para colocar estrelinhas e planetas no teto de seu quarto para que brilhassem antes de dormir e pudesse pensar nos grandes feitos dos deus e deusas de tempos antigos. Enquanto caminhava até o necrotério, a lembrança da voz do pai atingiu-lhe como uma flecha - "As estrelas te protegerão durante o sono, Celinha...".

Na noite anterior Célia havia sonhado com a casa. Sim, a casa, por que sempre assim? Era a terceira noite seguida, a casa da rua dos Bancários. "Não mais rua dos Bancários, mudou para rua Dr. Gilson Moreira, em homenagem ao meu avô", ela sempre disse a todos com muito orgulho. Mas nunca o conheceu. Nem sabe se teria sido um bom avô ou sequer um bom homem. O que ela saberia caso não tivesse morrido tragicamente antes de seus netos nascerem? Sabe-se que foi um bom médico, como aquele que há alguns minutos lhe dera a notícia fatal. Pelo menos é o que dizem por aí, talvez por isso o nome da rua seja Doutor Gilson Moreira, D-o-u-t-o-r, e não apenas rua Gilson Moreira. Um homem. Sabia que ele tinha ar de galã típico dos anos 40, com o paletó justo, rosto e bigode finos, chapéu preto de aba reta, era assim que aparecia nos porta-retratos da sala de estar, sempre lá estáticos na estante, a única imagem que tivera dele, do avô que se tornou o nome da rua. A rua pela qual, hoje, circulam homens, mulheres, crianças para irem à padaria, ao colégio do filho, à casa de uma suposta amada... A antiga rua dos Bancários, a mesma onde ainda descansa a casa número 11, lá onde Célia e seus outros irmãos cresceram - aqueles que, por capricho do destino, Gilson Moreira nunca teve a oportunidade de conhecer.

Se quisesse, Célia poderia descrever a casa em cada detalhe, mesmo que ela nunca mais aparecesse em sonhos ou que todas as fotos já empoeiradas fossem destruídas. O tamanho dos quartos, a cor dos azulejos, o espaço exato entre o quarto do pai e da avó. Fechava os olhos e lembrava do renc-renc da cadeira de macarrão toda vez em que a avó sentava - "Pororoca, vem lanchar!". Era assim que a chamava. Por quê? Nunca perguntou. Célia só respondia e ia até o encontro afável da avó, sentava do lado, e pronto. Quando escutava o canto de selva dos soldados chegando, o barulho dos pés marchando, corria para o pátio da casa, debruçava-se sobre a grade para assistir, como um lindo espetáculo. Os cachorros corriam junto e latiam de volta para os soldados como se soubessem do passado.

"Aqui está, vou deixá-los a sós", disse a enfermeira saindo pela portinha do necrotério. No leito de cerâmica branca, jazia seu pai. Hesitou abrir o zíper do saco preto, pensou em todas as manhãs em que ele chegava em casa cambaleando, na preocupação de sua mãe e tantas noites perdidas em que as duas passaram ao pé da cama rezando. "Aqui você está mais seguro, não é mesmo? Não pode mais beber. Está seguro de...". Não soube por quantos minutos ficou parada pensando e olhando fixamente para ele, mas foi o suficiente para anoitecer sem que percebesse. No fim, não chegou perto do corpo do pai, teve medo. "Ah, no velório vão vesti-lo, maquiá-lo, vai ser melhor e...", mas se deu conta que nada daquilo seria suficiente para esconder a presença eterna do vazio.

Célia saiu do necrotério com os olhos cheios d'água e, assim como lá fora começavam as primeiras lágrimas de Urano, entrou no carro e chorou.

A Marcello Moreira, que hoje completaria 58 anos.