Antifascismo, educação e cognição, por Victor Leandro

21/04/2020

Não é apenas no discernimento político que o fascismo pode ser combatido. Antes mesmo da análise dos processos sociais, para que seja feita a devida observação destes, há a necessidade de envidar processos educativos que permitam realizar, no nível básico da cognição, essas atividades a contento, o que, como bem sabemos, a precariedade da formação escolar no Brasil oferece obstáculos difíceis de ser transpostos.

Provavelmente, a principal das capacidades negligenciadas para o antifascismo é a abstração, a única capaz de desvelar eventos fascistas, posto que nenhuma ação promovida por estes é assumidamente tida como tal. É apenas no exercício do pensamento que seu sentido se revela.

Abstrair significa isolar, extrair do real um item relevante, a fim de considera-lo pormenorizadamente. É retirar dos fatos, da realidade concreta e confusa, aquilo que pode ser posto em conceitos e em concatenações causais. Somente com isso, é que a apreensão do significado dos acontecimentos se torna possível, sem o que perdemo-nos em sua imediatez e não atingimos o âmago dos problemas, o qual ascendem por meio desse trabalho do intelecto.

Quando indivíduos desesperados atacam postos de saúde por falta de atendimento, e não os governos que os causam, demonstram a carência do trabalho abstrativo. Já no nível fascista, os que responsabilizam as políticas de isolamento e não a letargia do antigoverno pelo caos econômico, operam no mesmo registro. Obviamente, muitos que o fazem estão na ordem dos manipuladores, porém a massa que os segue em grande parte age, em termos fundamentais, devido às limitações de sua operacionalidade cognitiva, a qual a torna vulnerável a discursos opressores efusivos.

Isso tudo revela um sintoma atroz de nossa realidade educativa. Abstração é algo que se desenvolve na sala de aula, e que não depende apenas dos recursos disponíveis, do grau de efetividade econômica da escola, nem exatamente da condição social do aluno, e sim dos direcionamentos do trabalho educativo.

Sem dúvida, o trabalho de formação política é importante, porém o cognitivo, enquanto pré-condição, vem inevitavelmente primeiro, tal como é necessário antes ler para debruçar-se sobre um livro. Precisamos pensar isso para que o fascismo não avance. Do contrário, só teremos autômatos gritando pátria acima de tudo.