Adaptação, por Victor Leandro

06/07/2020

Não se pode subestimar nunca a adaptabilidade humana. Sem dúvida, essa é a sua maior qualidade evolutiva.

Senão, vejamos o Brasil. Há furacões e ameaça de gafanhotos. Os pobres continuam abandonados e os hospitais seguem cheios. Enquanto isso, o não-governo passou da negatividade belicosa para um nulo igualmente nocivo, convertendo a ausência do Estado em regra política. Diante desse caos, onde estão as pessoas? Estão pensando em amenidades, estão cuidando da vida.

Ou ainda Manaus. Aqui, as denúncias escandalosas de corrupção saltam nos jornais a um ritmo contínuo. Os comércios reabrem desordenadamente, ao passo que nos postos de saúde ainda morrem dez pessoas por dia do vírus. Um número aceitável, pensam. A estatística é mesmo um grande antídoto.

Mas que não se pense que não se trata aqui de enunciar uma virtude. Sem essa marcha impassível, a humanidade não poderia seguir. O que se questiona, no entanto, é ser essa caminhada agora só um declínio.

Se há um caos que deveríamos tolerar serenos, teria de ser o da autêntica transformação. Mas diante dela tornamo-nos ínfimos. Pensando bem, a evolução não nos beneficia tanto quanto deveria. Permanente verdade nietzscheana. O sujeito, frente à grandeza, vacila, prefere o mesmo, e assim se elogia.

O que é realmente novo, mais uma face do delírio.