Acabou 2020?, por Victor Leandro

13/07/2020

Nesse momento pandêmico, em que a maioria das atividades se encontram precarizadas e destituídas de conteúdo, não raros são os relatos de que o ano simplesmente inexistiu. Tal atitude, embora compreensível, não pode ser tomada como condizente, ainda mais quando colocada sob um prisma nietzscheano.

Ocorre que para quem adota o amor fati na existência toda condição dada é força de vida. Diante do destino inexorável, a conduta menos adequada é a paralisia, no que se opta pelo caminho de vivê-lo da maneira mais criadora possível, porque negá-lo seria simplesmente recusar a si mesmo e ao mundo, o que é inadmissível. Assim, o filósofo considera que, mesmo diante do quadro mais adverso, tudo permanece como provido de vivacidade, a qual precisa ser amada e admitida em sua substância, e não relegada em nome de uma fantasia de seu ideal:

Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!

Esse Sim, que é a afirmação não circunstancial da vida, devemos tomar como válido sempre. Somente dessa forma é possível suportar os abismos que se nos põem adiante. Somente com ele podemos caminhar firmes em meio à iniquidade e à degradação.

Também é dessa maneira que nossa atuação coletiva pode se realizar. Num tempo perdido, a imobilidade geral é tudo o que resta. Contra ela, é que devemos compartilhar o amor ao fato e a luta contínua. Nossa época é sempre o agora. É nessa marcha que a transfiguração caminha.