4 refratações sobre o silêncio, por Victor Leandro

17/09/2020

A virtude do sábio - pretensiosa e arrogante, que não diz nada como se guardasse um segredo que o resto dos mortais não merece conhecer, fazendo-se deixar em suspenso perguntas que ele sugere ter a chave definitiva de sua resposta, a qual no entanto é vedada - ao menos assim ele imagina - ao mundo por sua decisão.

O discurso do pai - Opressivo, que se vangloria de sequer precisar dizer algo aos filhos, posto que num simples olhar já é capaz de impor à criança a violência e a submissão. Está imortalizado em Sartre e sobretudo em Kafka, em quem se verificam de maneira modelar as suas severas consequências.

A comunicabilidade com o outro - interrompida, deixando em seu lugar o culto egoico do ressentimento, que desconhece a possibilidade do interlocutor, da voz em troca, por conta de uma contrariedade pontual, mas que se cultiva.

A forma do poder - que nada diz, e nesse faltar de palavras perpetua o mundo sem respostas nem diálogo da burocracia, do poder injustificado de classes, da inacessibilidade de sua austera e alta hierarquização. Por todas essas relações, o silêncio é o burguês no cimo da superestrutura, contra o qual só a linguagem dos que dizem liberta, posto ser somente ela que recobra a humanidade da copiosa esfinge.