2118, por Victor Leandro

11/04/2020

2118

-De forma alguma, caros senhores, posso corroborar o que afirmam entrementes. Diferente do que nos narra a história oficial, a grande pandemia do milênio não foi um instante marcado apenas por gestos heroicos e condutas bem conduzidas. Ao contrário. O que não faltaram foram estupidezes e atos ridículos, e isso nos mostram com clareza os registros que ora se tornam acessíveis, principalmente aqueles anotados ao Sul do Equador. Lá, as coisas marcharam num ritmo difuso. Houve mesmo, segundo dizem, um presidente que lançou sua população à ruína por um punhado de moedas. Mas, deixemos esse episódio para outro momento.

No que quero me concentrar aqui é no fato de que a desrazão atingiu variados níveis e modificou até mesmo as formas de patologias. Lembrem-se, tratava-se da era de ouro dos inibidores de recaptação de serotonina. As neuroses se davam das maneiras mais esquisitamente aceitáveis, sem qualquer alarde público. Como prova de meu ponto de vista, apresento-lhes esse breve diário coletado de um jovem à época e que, tempos depois, teve um neto que calhou de ser meu paciente. Notem que o conteúdo parece amplamente trivial, porém esconde alinhamentos clinicamente muito expressivos. Mas não vou me exceder e impor-lhes minha interpretação. Deixarei que suas palavras falem por si.

8:20h - Acordo. Sinto-me feliz. Penso no amor. Estou sozinho.

10h- Consigo levantar-me. Não tenho fome. Olho para a janela e sorrio.

10:40h- Café da manhã e almoço juntos. Poupa tempo.

11:25- Leitura. Duas obras. O capote e Discurso do método. Vinte e dois minutos para cada livro. É necessário que se marquem as páginas com dobras na ponta. Do contrário, nunca se sabe. Comer dois biscoitos, deixando o segundo pelo meio.

12:30h- Ligo o computador. Sinto raiva do que dizem. Volto a dormir.

14:25h- Reviro cartas antigas de relacionamentos malsucedidos. Vem a memória. Apenas pensamentos ruins. Não consigo lembrar-me de um só bom momento.

16h- Pausa para o lanche. Café instantâneo com pão integral, ambos de sabor insuportável.

17:05h- Exercícios. Saltos parado no meio da sala. Falta disposição. Sensação de ridículo.

18h- Aperto o botão da TV. Somente jogos antigos. Todos do flamengo, obviamente desinteressantes.

18:01h- Tento escolher um filme. Quase uma hora de sinopses e vinhetas. Fracasso mais uma vez.

19h- Atento ao noticiário. Percebo que estou apaixonado pela comentarista. Sua segurança é assustadoramente atraente. Delírio.

20h- Dispenso o jantar a mim mesmo.

22h- Expediente de trabalho. Acesso às anotações e projetos de artigos. As palavras saem a esmo.

00:02h- Hora de dormir.

04:16h- Insônia.